sexta-feira, 18 de maio de 2018

SAÚDE: TRAGÉDIAS CAUSADAS PELA MINERAÇÃO CLANDESTINA

Envenenados por mercúrio, moradores do Tapajós correm riscos graves de saúde

O Boto


Problemas neurológicos, autismo, má formação de bebês, mal de Parkinson, dificuldades de raciocínio, perda de memória, falta de capacidade para manter atenção, problemas de fala, perda de habilidades motoras e visão são cada vez mais comuns nas comunidades e cidades do Tapajós. Por quê? Envenenamento e intoxicação por mercúrio e metilmercúrio através da alimentação. Ingerido, o metal se aloja no cérebro e causa danos irreversíveis.

Cássio chegou em Alter do Chão pouco mais de três anos atrás. Muitos de nós conhecemos o jovem ambientalista que se engajou em causas em defesa do Tapajós contra garimpos ilegais, contra invasão de madeireiros e sojeiros em terras indígenas, pela demarcação de aldeias no Alto e Médio Tapajós e contra desastrosos empreendimentos hidrelétricos de alto impacto para as comunidades e meio-ambiente. Chegou aqui com quase 30 anos e, depois de apoiar voluntariamente vários projetos, foi trabalhar em Itaituba na defesa dos povos Munduruku. Voltou pra casa aos 32 anos, com altíssimo grau de intoxicação por mercúrio — pois, por não comer carne, esbaldava-se em almoços compartilhados onde eram servidos peixes grandes da região. Já em São Paulo, Cássio foi classificado com provável Esclerose Lateral Amiotrófica – ELA, doença sem cura e progressiva que leva a morte em alguns anos.

Mas como o mercúrio está na alimentação?

Mercúrio

Porque é usado no garimpo para extração de ouro. A proliferação descontrolada e criminosa de garimpos se intensificaram desde os anos 70, com o Plano de Integração Nacional e a construção das rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém.

O rio está contaminado e pede socorro. Os peixes grandes também, com níveis de metais pesados muito acima dos aceitáveis, nacional e internacionalmente, para consumo humano. Esta contaminação é uma das maiores preocupações com saúde pública quando se fala em metal pesado em águas, solo e no ar. Quem diz isso é a Organização Mundial da Saúde da ONU. No Brasil, pesquisas sobre a contaminação da bacia do Tapajós por causa de garimpo ilegal e legal são antigas. Todas alertam faz tempo que é preciso abolir o uso de mercúrio que está afetando a saúde das populações ribeirinhas que dependem de peixe para sobreviver.

O que é bioacumulação?


Árvore, Ser Tecnológico

Metais pesados de rejeitos da mineração, substâncias tóxicas de pilhas e baterias, além de novas substâncias persistentes usadas em cultivo de soja como pesticidas e químicos industriais se acumulam em cada nível da cadeia alimentar. Esse acúmulo é chamado de BIOACUMULAÇÃO. Como a cadeia alimentar tem uma hierarquia, quem está mais alto na cadeia come, por tabela, todo o histórico de veneno do seu alimento. Assim, dentro do peixe grande está um monte de peixinho pequeno já com um tanto de veneno, que comeu um monte de zooplancton também já com veneno, que comeu autótrofos também envenenados. Com o mercúrio se acumulando progressivamente, a quantidade de metal e sua concentração  aumenta a cada nível e os grandes peixes têm alta concentração. Essa ampliação é chamada de MAGNIFICAÇÃO TRÓFICA.


Água, Sua Linda

O Tapajós é um rio que corre em leito de ouro. O garimpo ilegal com dragas e balsas equipadas remexendo o fundo do rio não é de hoje (http://goo.gl/6Glkti, http://goo.gl/HBblrX). Com muito mercúrio, cianeto e arsênio acumulados nos sedimentos no fundo do rio, quando a draga está funcionando, todo o leito é remexido e além do novo mercúrio adicionado, os metais pesados que estavam lá desde os anos 70 também volta para as águas. Embarcações de carga com motores muito grandes que agora também vão para cima e para baixo no Tapajós fazem o mesmo mal ao leito do rio.

Em relação às dragas ilegais, todos sabem que a situação está fora de controle. Caetano Scannavino esteve recentemente na aldeia Munduruku Sawré Muybu, no médio Tapajós, e filmou a invasão de garimpeiros ilegais em terras indígenas protegidas (https://goo.gl/r4KqRu). O Padre Edilberto Sena, coordenador do movimento Tapajós Vivo, denunciou as mais de 70 dragas ilegais no alto curso do rio (http://goo.gl/KDySSo,http://goo.gl/4TqnaM). Elas são ilegais, mas não são invisíveis: o rio é rota de passagem entre todas as comunidades ribeirinhas da região.

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