quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

WEB: NÃO SORRIA. VOCÊ ESTÁ SENDO RASTREADO!

Oito em cada dez sites rastreiam você, veja como.
Quando você entra num site, ele também carrega códigos ocultos - e isso permite que Google e Facebook monitorem os seus passos por quase toda a internet
Por Lucas Agrela, de Exame.com
Um relatório da empresa de segurança alemã Ghostery informa que 77,4% dos sites rastreiam seus visitantes. Ou seja, quase oito em cada dez sites usam coletam dados sobre você na internet. 

Os dois principais rastreadores são o Google e o Facebook, cujo principal negócio é a publicidade digital. Quando você acessa um site cujos banners são administrados pelo Google, ou pelo Facebook, eles ficam sabendo – mesmo que aquela página, aparentemente, não tenha nada a ver com nenhum dos dois. 

O maior sistema é o do Google, que está presente em 60,2% das páginas da internet, contra 27,1% do Facebook.  

 Ghostery
(Ghostery/Reprodução)

Cada site utiliza vários rastreadores ao mesmo tempo. Cerca de 40% dos sites têm entre dois e nove rastreadores, enquanto 16,2% têm mais de dez. A ferramenta de detecção de dados mais usada na internet é a do Google Analytics, que dá diversos tipos de informação sobre os dispositivos que são usados para acessar uma página web, como modelo do aparelho, operadora de internet, idade, localização e tempo médio de visita ao site.
 Ghostery
(Ghostery//Reprodução)

Em segundo lugar, aparece o Facebook Connect, usado para captar informações e facilitar o compartilhamento de páginas na rede social. A Ghostery analisou dados referentes a 850 mil pessoas e 400 milhões de visitas a páginas.

Existem plug-ins para o navegador que prometem impedir o monitoramento, como o Disconnect, o Privacy Badger e o próprio Ghostery. 

SEGURANÇA: AGENTES FEDERAIS, HERÓIS ANÔNIMOS

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e texto
A atividade de investigação exige do agente federal atributos como perspicácia, criatividade, dedicação e discrição, bem como traços de personalidade como curiosidade, persistência, paciência, memorização, habilidade para dissimulação, representação e uso de disfarce. Por isso o elemento humano é o mais importante para o sucesso da investigação policial, pois sua conduta, procedimentos, conhecimentos e experiência definem os caminhos e resultados que serão alcançados.
Os agentes federais possuem formação universitária em diversas áreas, pois precisam ter capacitação técnica, científica e metodológica multidisciplinar, que os gabarita a exercer suas atribuições em nível de complexidade e responsabilidade condizentes com o crime a ser investigado. Esse modelo que tem como referência o FBI (Federal Bureau of Investigation), a Polícia Federal americana.
A identidade do agente federal investigador deve ser mantida em sigilo, pois não pode ser uma pessoa conhecida, sob pena de comprometer a investigação e colocar em perigo sua vida e a de sua equipe. Utilizam técnicas de investigação de acordo com o caso concreto e conforme o delito a ser apurado, dentre as quais podemos citar as ações de vigilância, fotografia e filmagem, entrevista e interrogatório, infiltração, escuta ambiental e interceptação telefônica.
As investigações de crimes complexos e de organizações criminosas demandam o emprego da inteligência policial e a realização de ações que são decididas e implementadas pelos agentes federais em tempo real, de acordo com a dinâmica e a cronologia dos fatos, o que resulta em mais eficiência e eficácia na elucidação de crimes. Essa atuação demanda um regime de dedicação integral, exigindo que o policial federal seja um trabalhador incomum, que passa longo período afastado de suas famílias e que arrisca a própria vida no cumprimento de seu trabalho.
O resultado das investigações dos agentes federais é consolidado no Relatório de Investigação onde faz constar informações e análise sobre a autoria, materialidade e circunstâncias do crime que foram apuradas e que, pelo modelo adotado no Brasil, irá compor juntamente com as oitivas e depoimentos de envolvidos, o laudo pericial e papiloscópico, os elementos de apuração que subsidiam o relatório final do inquérito policial, que será remetido ao Ministério Público para denúncia dos envolvidos e instrução do processo crime na Justiça Federal.
A cada conclusão de uma investigação, uma nova se inicia, pois, assim como o crime não para, as atividades de investigação da Polícia Federal também são permanentes. Portanto, quando os noticiários divulgam as operações da Polícia Federal, elas retratam o sucesso do trabalho de investigação desenvolvido pelos agentes federais que atuam em sigilo e que não dão entrevistas, mas que são os heróis anônimos da investigação”. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

COMPORTAMENTO: TRABALHO NÃO É BOM LUGAR PARA "CERTAS CONFIDÊNCIAS"

7 coisas que é melhor não revelar sobre si mesmo no trabalho
Falar sobre si mesmo no trabalho é importante para construir vínculos com os demais. Mas alguns pensamentos é melhor não dividir com ninguém, diz psicólogo
Por Claudia Gasparini
 
Falar sobre si mesmo no trabalho é importante — e muitas vezes indispensável — para o sucesso. Afinal, não dá para construir vínculos e alimentar o seu networking de você não se abre minimamente para colegas, clientes, chefes e subordinados.
Por outro lado, ignorar as fronteiras entre vida pessoal e profissional pode trazer sérios riscos para a sua reputação.
“Revelar as coisas erradas pode ter um efeito devastador sobre a sua carreira”, diz o psicólogo norte-americano Travis Bradberry em artigo no LinkedIn. “Você precisa ter um limite e tomar cuidado para não atravessá-lo, porque, uma vez feito isso, não tem como voltar atrás”.

O segredo para se expor de forma segura e equilibrada é a inteligência emocional. Quem tem essa competência é capaz de ler as dinâmicas mais sutis de cada ambiente e analisar o comportamento alheio.
Essas habilidades são fundamentais para determinar o que pode ser compartilhado socialmente e o que é melhor guardar para si.
Via de regra, diz Bradberry, estas são 7 informações que ninguém deveria revelar sobre si mesmo no trabalho:
1. Suas crenças políticas
Diante da polarização ideológica instalada no Brasil e no mundo, as opiniões políticas formam uma parte quase indissociável da identidade de cada um. “Discordar com as visões de alguém no trabalho pode rapidamente prejudicar a imagem positiva que aquela pessoa tinha de você”, escreve o psicólogo no LinkedIn. “Confrontar os valores de alguém é uma das coisas mais ofensivas que você pode fazer”, diz ele.
É mais estratégico escutar o que os seus colegas e chefes têm a dizer, da forma mais neutra e respeitosa possível. Hoje os ânimos andam tão aflorados que até um olhar de reprovação pode desencadear um conflito. Para Bradberry, contestar a opinião política de uma pessoa tem mais chances de irritá-la do que de fazer com que ela repense suas ideias.
2. Quem você acha incompetente na equipe
Em qualquer ambiente de trabalho, é comum haver uma figura que todos identificam como a menos comprometida ou eficiente do grupo. Mas esse consenso silencioso não dá aval para a maledicência. Segundo Bradberry, revelar a sua opinião sobre a incompetência de um colega pode parecer uma tentativa insegura de valorizar o seu próprio desempenho.
Se você não tem o poder de demitir aquela pessoa, ou fazer com que ela melhore a sua entrega, é melhor se calar. O hábito de falar mal dos outros no trabalho sempre se vira contra o agressor: se você não controla o seu próprio veneno, mais cedo ou mais tarde se tornará o alvo da vez.
3. Seu salário
Nem todas as empresas têm uma política estruturada de remuneração, e eventuais incongruências podem gerar um forte sentimento de injustiça. Assim, por mais que seja tentador revelar os números do seu holerite, é melhor se calar a respeito disso. Até boas notícias como aumentos salariais merecem discrição.
A partir do momento em que você e seu colega souberem quanto cada um ganha, vocês nunca mais se verão da mesma forma. “Uma vez revelada essa informação, tudo que você fizer no trabalho será visto como algo inadequado para a sua faixa salarial”, escreve Bradberry.
4. O fato de que você odeia o seu emprego
Pessoas negativas ou queixosas são muito mal vistas em qualquer ambiente de trabalho. Por isso, por mais que você realmente esteja sofrendo no seu emprego atual, é melhor pensar duas vezes antes de abrir o seu coração para os demais.
De acordo com Bradberry, os chefes são rápidos em perceber quem são as pessoas que estão deprimindo o ânimo da equipe com as suas reclamações. Se você não quer ser substituído por alguém mais “bem-humorado”, é melhor conter as suas queixas e discretamente buscar emprego em outro lugar.
5. Sua vida sexual
Segundo Bradberry, compartilhar com colegas o que você faz entre quatro paredes é sempre uma má ideia. “Comentários do tipo podem provocar algumas risadas, mas muita gente vai se sentir desconfortável ou até ofendida”, escreve o psicólogo. “Cruzar essa linha vai ferir instantaneamente a sua reputação”.
O mesmo vale para o que você imagina sobre a vida sexual alheia. De acordo com o especialista em inteligência emocional, quem faz perguntas ou comentários sobre a intimidade dos outros no trabalho pode ser visto como alguém invasivo, pouco confiável ou até assustador.
6. Histórias malucas sobre a sua juventude
Tem uma história muito engraçada sobre uma festa em que bebeu até cair aos 19 anos? Adora falar sobre o seu hábito de roubar pequenos objetos quando era mais novo? Muitos anos podem ter transcorrido desde então, mas nem por isso as pessoas vão necessariamente acreditar que você amadureceu. O seu passado diz muito sobre você, diz Bradberry.
Basta ver os políticos: muitos já foram e continuam sendo eleitos apesar de histórias pouco abonadoras sobre o seu passado — mas só depois de um árduo trabalho de convencimento feito pela sua equipe de relações públicas. Como você não conta com essa “infraestrutura” para limpar o seu nome, é melhor guardar as suas anedotas para si mesmo.
7. Seus planos de mudar de emprego
Bradberry conta que, quando era criança, cometeu o equívoco de contar ao seu treinador de beisebol que ia abandonar o time dentro de duas semanas. Durante todo aquele período, ele foi rotulado como “o menino que não quer estar aqui” e amargou o banco de reservas enquanto os demais jogavam e se divertiam.
O mesmo vale para a vida profissional, conclui ele. “Ao revelar que pretende ir embora, você de repente se transforma numa perda de tempo para todo mundo”, escreve o psicólogo. “Também existe a possibilidade de que a sua busca por um novo emprego não dê certo, então é melhor esperar algo mais concreto antes de espalhar a informação para todo mundo”.
Este conteúdo foi originalmente publicado em Exame.com 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

GRANDES PROJETOS: "DE QUÊ ELES ESTÃO FALANDO MESMO?"

O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?
O Brasil etnocida avança na Amazônia paraense: primeiro Belo Monte, agora Belo Sun

 Belo Monte
Indígena Araweté, em reunião no centro de convenções de Altamira, no Pará. LILO CLARETO

Ele era um ancião. Seu povo, Araweté. Tinha o corpo vermelho de urucum. O cabelo num corte arredondado. E estava sentado ereto, as mãos abraçando o arco e as flechas à sua frente. Ficou assim por quase 12 horas. Não comeu. Não vergou. Eu o olhava, mas ele jamais estabeleceu um contato visual comigo. Diante dele, lideranças indígenas dos vários povos atingidos por Belo Monte se revezavam no microfone exigindo o cumprimento dos acordos pela Norte Energia, a empresa concessionária da hidrelétrica, e o fortalecimento da Funai. Ele, como outros, não entendia o português. Estava ali, sentado numa cadeira de plástico vermelho, no centro de convenções de Altamira, no Pará. O que ele via? Há 40 anos, ele e seu povo nem mesmo sabiam que existia algo chamado Brasil. Possivelmente isso siga não fazendo nenhum sentido, mas agora ele está ali, debaixo de luminárias, sentado numa cadeira de plástico vermelho, aguardando seu destino ser decidido em português. O que ele via?

Não sei o que ele via. Sei o que eu via. E o que vi me fez alcançar não uma dimensão dele, mas de mim. Ou de nós, “os brancos”. Sempre que escrevo sobre os meandros técnicos e jurídicos de Belo Monte, e agora também de Belo Sun, sei que perco algumas centenas de leitores por frase, por mais que simplifique o que é complexo. Porque a linguagem da justiça, assim como a da burocracia, com todas as suas siglas, é feita para produzir analfabetos mesmo em quem tem doutorado em letras. Mas o que resta para os indígenas que se esforçam para se expressar na língua daqueles que os destroem no mesmo momento em que a vida é destruída? O que resta para o velho Araweté sentado ali por quase 12 horas? Ele não tem escolha, já que é com estas palavras que sua existência é aniquilada.

As lideranças dos vários povos indígenas atingidos por Belo Monte, as que falam português, denunciavam a impossibilidade da vida depois que a hidrelétrica se impôs no Xingu. Exigiam que a Norte Energia cumprisse suas obrigações legais para restabelecer as atividades produtivas nas aldeias e para que pudessem superar a situação de insegurança alimentar. A reunião, na quarta-feira (26/1), era uma resposta ao protesto dos indígenas no Ministério Público Federal em Altamira, seguida pela ocupação do escritório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na cidade. Antes, eles podiam exigir o cumprimento dos acordos parando o canteiro de obras de Belo Monte, mas agora que a usina já opera o poder de pressão diminui e o que já era grave se torna ainda pior. Com a presença do novo presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Antônio Fernandes Toninho Costa, os indígenas exigiam o fortalecimento do órgão que deveria protegê-los e há anos vem sofrendo um desmonte promovido por setores e políticos ligados ao agronegócio, de olho nas ricas terras indígenas, e hoje tão intimamente entrelaçados ao governo Temer.

Belo Monte
Thais Santi, procuradora da República, entre Hugo Loss, chefe do escritório do Ibama em Altamira, à esquerda, e Antonio Costa, presidente da Funai. LILO CLARETO

A reunião era importante porque a situação é desesperadora. Há relatos de fome e de aumento de doenças em parte das aldeias. Durante a construção da hidrelétrica, o chamado Plano Emergencial deveria ter fortalecido os indígenas diante da magnitude do que estava para acontecer. Em vez disso, tornou-se um balcão onde se barganhou com a vida dos povos originários. Por cerca de dois anos a Norte Energia deu uma espécie de mesada aos povos indígenas atingidos, 30 mil reais em mercadorias para cada aldeia todo mês. Era um instrumento de cooptação e corrupção dos caciques para minar a resistência à construção de Belo Monte.

Belo Monte
Gilberto Veronese, superintendente de Assuntos Indígenas da Norte Energia S.A., empresa concessionária de Belo Monte. LILO CLARETO

Aldeias se dividiram. Indígenas deixaram de plantar roças para comer produtos industrializados. A desnutrição infantil disparou, assim como os casos de diarreia. Ao mesmo tempo, a Funai, que deveria protegê-los diante do monumental empreendimento no Xingu, rio sagrado para os povos indígenas, deixou de ter chefes de posto nas aldeias e foi convenientemente enfraquecida na região. O Plano Emergencial para conter o impacto representado pela construção da hidrelétrica, ao virar um balcão em que mesmo indígenas de recente contato negociavam diretamente com a empresa, tornou-se o maior impacto. Tanto que a procuradora da República em Altamira, Thais Santi, moveu uma ação contra o Estado e a Norte Energia por etnocídio – extermínio cultural – dos povos indígenas.

Belo Monte
Indígena atingido por Belo Monte, durante reunião em Altamira. LILO CLARETO

Hoje, a situação é considerada pelos observadores ainda mais grave. O rio foi alterado pelo barramento e a sobrevivência dos indígenas está ameaçada. Mas, em vez de haver uma responsabilização do Estado, em todas as suas instâncias, o governo do do Pará deu em 2 de fevereiro a licença de instalação de outro gigantesco projeto: a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu, bem ao lado de Belo Monte. A região, já extremamente impactada pela hidrelétrica, agora sofrerá um novo impacto, numa sobreposição cujas consequências não foram dimensionadas. A Funai reiterou que o estudo que trata do licenciamento ambiental é “inapto à apresentação para as comunidades indígenas”, por não atender a critérios básicos, e que não há nem sequer “dados primários” sobre as terras indígenas mais próximas do local de mineração. Seria necessário pelo menos seis anos de monitoramento da Volta Grande após Belo Monte para analisar a viabilidade ou não de um novo empreendimento na região. Mas a Funai foi ignorada. Para os povos indígenas, é uma espécie de renovação do fim do mundo.

Uma semana atrás, os indígenas denunciavam o impacto de Belo Monte. Hoje, desesperam-se porque o impacto de Belo Sun vai se sobrepor ao de Belo Monte na Volta Grande do Xingu. O pior se anuncia, e o pior acontece. Tem sido assim. Todos os mecanismos de proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas são ignorados – ou torcidos – e o judiciário tem se mostrado conivente com o rompimento da lei, como se ela fosse apenas uma trama frouxa. Como o velho Araweté pode entender isso, ele que sequer compreende uma língua em que a palavra “Belo” pode nomear algo que destrói e mata?

Pintado de urucum, agarrado ao arco e às flechas, sentado numa cadeira de plástico vermelha, sem compreender a língua em que seu destino é decidido e sua fome decretada, ali está o velho Araweté. Como ele chegou até o centro de convenções? Que caminhos o levaram até aquele momento, aquela cadeira, aquele cenário tão exposto pelas luminárias e ao mesmo tempo tão encoberto por negociações e subterfúgios e apagamentos?

Na visão dos Araweté, eles é que amansaram os brancos

Os Araweté sabem de nós, os brancos, há muito tempo. Como conta o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no Povos Indígenas no Brasil (PIB), uma espécie de enciclopédia viva organizada pelo Instituto Socioambiental sobre as mais de 240 etnias que povoam o território que chamamos de Brasil, mas que eles chamavam por outros nomes há muito mais tempo, os brancos estão presentes em sua mitologia. Mas o contato “oficial” ocorreu nos anos 70 do século 20, no processo de implantação da Transamazônica, o primeiro dos grandes empreendimentos promovidos pelo Estado e executado pelas grandes construtoras na região. Naquele momento, a ditadura civil-militar iniciou um trabalho de “atração e pacificação” dos povos indígenas. No entendimento dos Araweté, é importante sublinhar, o que se deu foi o contrário: eles é que amansaram os brancos.

Em 1976, os Araweté foram encontrados pela Funai acampados precariamente junto às roças de camponeses. Estavam famintos e já doentes pelo contato com os brancos. Em julho daquele ano, os sertanistas decidiram iniciar com eles uma caminhada de cerca de 100 quilômetros até um posto da Funai. Nos 17 dias que durou o percurso, adultos e crianças iam tombando pelo caminho. Com os olhos fechados por uma conjuntivite infecciosa, os Araweté não enxergavam sequer o caminho. Perdiam-se na mata e morriam de fome. Crianças pequenas, subitamente órfãs, eram sacrificadas por adultos desesperados. Muita gente, fraca demais para seguir andando, pedia para ser deixada para morrer em paz. Ao final da jornada, 73 pessoas já não existiam, vitimadas pelo contato e pela caminhada. O primeiro censo feito pela Funai registrou 120 sobreviventes. Eram, naquele momento, todos os Araweté do planeta.

O velho sentado na cadeira de plástico vermelha, agarrado a seu arco e suas flechas, é um dos sobreviventes do contato “oficial” com os brancos, 40 anos atrás. E ali está ele. O que ele vê? O que são os brancos que negociam sua vida no palco do centro de convenções? O que somos nós?

Um salto. Já não é a Transamazônica rasgada sobre a casa e a vida dos povos indígenas do Xingu. É Belo Monte. Em 2013, o antropólogo Guilherme Heurich, do Museu Nacional, apresentou um texto contundente na sexta câmara da Procuradoria Geral da República, em Brasília: “O que a Norte Energia fez, durante o Plano Emergencial, foi fornecer um fluxo constante de mercadorias em direção às aldeias. A Norte Energia se colocou como o grande doador, universal e infinito, de produtos não indígenas, tendo como intermediárias entre ela e os índios apenas as listas”.

No início, a Funai ainda barrava pedidos como, por exemplo, camas-box. Depois, os caciques passaram a negociar as listas diretamente. Era um balcão onde se reeditava a clássica alegoria de 1500, quando os europeus invasores trocaram a vida das populações originárias por espelhinhos. Quinhentos anos depois, eram voadeiras, combustível, TVs, bolachas, salgadinhos, refrigerantes. Indígenas que não consumiam açúcar passaram a consumi-lo diariamente. Como isso poderia proteger os povos indígenas do impacto de Belo Monte? A violação é explícita. Mas mais de um ano depois o judiciário ainda não decidiu sequer quem tem a competência para julgar a ação de etnocídio. Para o judiciário brasileiro, a morte cultural de povos indígenas não é um tema emergencial.

Para os Araweté, as mercadorias da Norte Energia eram a contrapartida de sua morte futura

Numa conversa com um Araweté, o antropólogo Guilherme Heurich descobriu como aquele povo compreendia o fluxo de mercadorias para a aldeia. As mercadorias eram o “pepikã”, a contrapartida da futura morte de todos. E o que vai matar?, ele perguntou. “A água”. A água? “Sim, a água da barragem”. A análise dos Araweté sobre o porquê do fluxo de mercadorias para a aldeia, segundo o antropólogo, não poderia ser mais clara e precisa: “tudo aquilo que o plano emergencial despejou é o pagamento antecipado da morte que acontecerá quando a aldeia for inundada pelas águas de Belo Monte”. Outro Araweté construiu uma saída para o dia em que barragem acabaria com a vida na aldeia: “A gente vai construir uma canoa bem grande... para morar todo mundo no meio do rio”.

Assim, aquele Araweté que agora está ali, no centro de convenções de Altamira, agarrado ao seu arco e às suas flechas, viveu junto com todos a certeza que o fim do mundo havia chegado. Como dimensionar e responder a um impacto desta magnitude sobre a vida psíquica? E agora ele está ali. Sentado na cadeira de plástico vermelho. Imóvel. Quase 12 horas horas sem comer, sem vergar.

O rio Xingu e seus afluentes já não são os mesmos. Seu povo, às margens do Ipixuna, sente isso dia após dia. Outros povos, estes da Volta Grande do Xingu, pegam o microfone para contar que Belo Monte mudou radicalmente o rio, ameaçando seu presente e interditando seu futuro. E avisam que, se o projeto de mineração de Belo Sun for liberado, acabará com tudo. Belo Sun está longe dos Araweté, mas está bem perto das aldeias de outros povos, como os Juruna e os Arara. Longe e perto são categorias relativas num ambiente em que um acontecimento desencadeia inúmeros outros em cadeia. “Se for dada a licença pra Belo Sun, vai ser o caos. E quem sofrerá somos nós”, diz o cacique Gilliard Juruna, da aldeia Muratu, que no final do ano passado perdeu um irmão afogado no rio em que havia nascido, mas já não reconhecia.

Belo Monte
Para os mais jovens, a hidrelétrica barrou o futuro. LILO CLARETO

O projeto da canadense Belo Sun, chamado de “Volta Grande”, no município de Senador José Porfírio, foi liberado apenas alguns dias depois da reunião em que o presidente da Funai reiterou: “A Funai já se manifestou. Somos contra Belo Sun”. A notícia chegou primeiro em inglês. A reunião da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) que formalizaria a licença de instalação para Belo Sun nem havia terminado e oficialmente a licença ainda não havia sido concedida, mas a mineradora canadense já lançava um comunicado em inglês anunciando a liberação. Em 12 anos, a mineradora canadense prevê a extração de 600 toneladas de ouro da região da Volta Grande do Xingu. Serra Pelada, a maior corrida do ouro vivida no Brasil do século 20, arrancou oficialmente pouco mais de 40 toneladas da floresta amazônica.

Um dos engenheiros que assina o relatório encomendado pela Belo Sun, atestando que o projeto é viável e seguro, é o mesmo que assinou o laudo atestando a estabilidade da barragem do Fundão, em Mariana. Segundo reportagem do “Fantástico”, programa da TV Globo, ele foi indiciado por homicídio após o rompimento que causou um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil. Segundo o Instituto Socioambiental, o projeto da Belo Sun prevê montanhas de rejeito com aproximadamente duas vezes o volume do Pão de Açúcar e a construção de um reservatório de rejeitos tóxicos. Tudo isso numa região já fortemente impactada por Belo Monte, em plena floresta amazônica, no momento em que a humanidade enfrenta a mudança climática.

Belo Monte
Os guerreiros indígenas foram à reunião com seus arcos e flechas. LILO CLARETO

A Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Pará já entraram com ações contra a licença para Belo Sun. O Ministério Público Federal já moveu uma ação afirmando que o processo de licenciamento deve ser feito pelo Ibama – e não pelo órgão estadual –, já que há territórios indígenas na área de impacto. Outra ação do MPF já anulou em primeira instância a licença prévia do projeto e hoje trava uma batalha de recursos nos tribunais superiores. Mas mesmo com a licença prévia "sub judice", ainda assim a licença posterior, a de instalação, foi concedida. E agora Belo Sun, que já está na Volta Grande há bastante tempo, tem permissão oficial para operar. Mais uma vez, os povos indígenas e as comunidades tradicionais não foram escutados, como determina a legislação. Mas a conivência do judiciário com os desmandos e omissões dos governos tornou a lei menos real do que o Curupira na região do Xingu. As violações são denunciadas e nada acontece. A violência é anunciada e não é impedida. A lei, assim como o rio, está barrada no Xingu.

Como o velho Araweté vai compreender esse mundo dos brancos que destrói o seu mundo e o mundo de outros povos indígenas? Como vai compreender uma lei que existe para não existir? Mas ele está lá, ereto, há quase 12 horas sem comer, sem vergar. Sentado na cadeira de plástico vermelho. A reunião, necessária para que não seja ainda pior, fundamental para que a Norte Energia seja pressionada a cumprir os acordos que já deveria ter cumprido há anos e a Funai a proteger os indígenas que nunca deveria ter desprotegido, é ela mesma uma violência. É outra língua, é outra organização social e política. O velho Araweté está ali, sentado entre representantes de outros povos indígenas que são seus inimigos históricos, ouvindo palavras que não decifra. Como é possível esse tanto de impossível, essa realidade absurda?

Nós os chamamos Araweté, mas até o nome não faz qualquer sentido na sua língua, que vem do tronco tupi-guarani. Foi dado por um sertanista da Funai, mas não há referência na língua dos Araweté, que não sabem por que são chamados de Araweté. Eles autodenominam-se “bïde”, que significa “nós”, “a gente”, “os seres humanos”. Brancos são “kamarã”. E são “awi” – “inimigos”, “estrangeiros”. E ali está o velho, sentado com seu arco e com suas flechas, e nem o nome pelo qual seu povo é chamado ao microfone faz qualquer sentido.

A tensão é permanente, e o tempo parece um tecido sempre na iminência de ser rasgado. 

Lideranças de outros povos, que falam bem o português, a dominam. Indígenas sacodem bordunas, as frases são fortes porque a vida vai virando morte. “O que vocês fazem é criar conflito, vocês botam nação contra nação pra brigar. Isso é crime”, diz uma liderança. “Se a Norte Energia é governo, se é dona de tudo, então diz logo que não vai fazer”, diz outra. “Para quem não nos conhece nós somos mortos de fome, ignorantes, corruptos, mas a ação de etnocídio está lá na mesa do judiciário”, grita um cacique. “Tem garimpeiros e madeireiros saqueando as nossas terras e vocês não fazem nada”, segue mais um. “Vocês têm que respeitar nós, respeitar nossos velhos, respeitar nossa língua. O rio tá seco, o rio tá sujo, nós estamos sofrendo. Vocês têm que ouvir!”

Belo Monte
Além dos arcos e flechas, os guerreiros levaram uma nova arma, o celular, que lhes permite capturar o som e as imagens de acordos e promessas. LILO CLARETO

O presidente da Funai pede um “voto de confiança”, lembra que acabou de assumir o posto, promete que tudo será diferente. Quando um indígena interrompe a sua fala, ele diz: “Eu ouvi vocês, agora peço que por favor me deixem falar. Esta é a democracia”. Se o velho Araweté pudesse compreender o português, o que pensaria sobre a “democracia”? Expressões como “geração de renda”, “atividades produtivas”, “logística de mobilização” são frequentes ao longo da reunião. Como compreender esse estupro dos ouvidos? Sentado ali, o que ele vê?

A língua desencarnada é muito pior do que um fantasma porque nem mesmo assombra. É o que sinto quando repito a palavra “etnocídio”. Como explicar que a morte cultural é a morte daquilo que um povo é, a morte de um ser e de um estar no mundo totalmente singular, é a morte que precede a extinção física, porque a cultura é o que dá sentido às batidas de um coração humano. Mas eu e tantos repetimos essa palavra para contar do que acontece com os povos indígenas desde que Belo Monte se materializou no Xingu, mas esse contar nada move. 

Nem mesmo uma ação do Ministério Público Federal denunciando o Estado e a Norte Energia por etnocídio fez o judiciário considerar o processo de morte cultural dos indígenas como algo a ser interrompido com urgência.

Mesmo para quem compreende o português, se a palavra desencarna, se o leitor não consegue enxergar ali o sangue e a alma do que ali morre, a letra é carta que não chega ao seu destinatário. E para o Araweté, este que morre lentamente aqui mesmo nesta reunião, vítima de etnocídio, sem sequer conhecer a palavra que nomeia a sua extinção?

Belo Monte
O presidente da Funai, Antônio Costa, assinou acordo em que se comprometia a fortalecer o escritório do órgão em Altamira. LILO CLARETO

Já é madrugada quando a reunião termina, e as lideranças se aglomeram para assinar mais um documento em que Norte Energia e Funai se comprometem a cumprir o que já descumpriram tantas vezes. O velho Araweté finalmente se move. Tem movimentos de felino e evoluciona pelo salão como se estivesse em território estrangeiro, que é onde de fato está. Bem lentamente, ele se aproxima de um teclado de computador e, cauteloso, estende um dedo coberto de urucum. Toca muito rapidamente a tecla e já retira o dedo. Nada acontece. Ele diz algumas palavras em sua língua para ninguém. Cola o corpo na parede branca, protegendo as costas em ambiente hostil, e fica curiosando a cena. Depois, volta a dar seus passos de felino. Vai até a mesa das autoridades, agora vazia. Pega o microfone e dá umas batidas nele, cuidadoso. Nada. Já está desligado. Nenhuma palavra sai dali. O presidente da Funai se despede com um adeus geral: “Fiquem com Deus”.

O que vê o velho Araweté? Gostaria de saber. Mas não sei. Ignorante, sei apenas o que eu vejo.

“Há uma coisa deles que morre pra sempre assim que a gente encosta”

Queria que a gente nunca tivesse tocado nele. Queria que nenhum povo indígena tivesse sabido de nós. Como disse Cláudio Villas Bôas, muitas décadas atrás, ao tentar “salvar” os indígenas: “Há uma coisa deles que morre pra sempre assim que a gente encosta”. Lembro também de uma outra frase, essa título de um livro precioso do antropólogo Jorge Pozzobon: “Vocês, brancos, não têm alma”.

Mas tocamos neles. E sempre que os tocamos provocamos extermínio. Como os piores alienígenas, desembarcamos e os matamos de tantas formas. E não aprendemos nada porque seguimos exterminando-os. E ontem jogamos neles Belo Monte. E hoje Belo Sun.

Somos ainda, em grande parte, os mesmos que provocaram o genocídio em 1500. E hoje a Constituição de 88, que assegurou a proteção dos povos indígenas, é atacada por todos os lados. E sofre cotidianamente o pior dos ataques, que é o de não ser cumprida. Os brancos não têm palavra. Escrevem a lei na letra e, mesmo assim, não têm palavra.

Não sei o que vê o velho Araweté. Sei o que eu vejo. Diante de mim há alguém que é ele mesmo um mundo. Alguém que não devia precisar estar ali. E tudo o que temos a oferecer são cadeiras de plástico vermelho e palavras desencarnadas.

Ele pega um charuto. Acende. Desce com dificuldade a escadaria do centro de convenções e desaparece na cidade com cheiro de esgoto. Eu saio dali como monstro.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas
Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

AMAZÔNIA: PROTEÇÃO NATURAL AMEAÇADA

Terras Indígenas seguem barrando desmatamento, mas situação de algumas áreas é crítica
Percentual dos desmates em todas as TIs mapeadas responde por apenas 2% do total da Amazônia
Localização das TIs mais desmatadas no período
As Terras Indígenas (TIs) continuam sendo uma barreira contra o desmatamento. Entre agosto de 2016 e julho de 2017, elas concentraram apenas 2% de todos os desmates na Amazônia. O percentual coincide com o índice histórico: dos quase 784 mil quilômetros quadrados de florestas já devastados na região até hoje, 98% estão fora dessas áreas.
Os dados mostram, no entanto, que algumas delas estão em situação crítica: entre 2016 e 2017, dez TIs concentraram 75% de todo o desmatamento nessa categoria de área protegida (veja mapa, tabela e fichas ao longo do texto e todos as imagens na galeria ao final da reportagem).
A análise foi feita pelo Programa Monitoramento de Áreas Protegidas do ISA e leva em consideração 177 terras inteiramente mapeadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A estimativa está concentrada no chamado arco do desmatamento. No ano que vem será divulgado o mapeamento consolidado de toda a Amazônia, incluindo o conjunto de 419 TIs.
Em novembro, o ISA divulgou que o desmatamento total naquelas 177 TIs cresceu 32%, na comparação entre 2016-2017 e 2015-2016 (saiba mais). O fato chamou ainda mais atenção porque a taxa total da devastação amazônica, entre os mesmos períodos, caiu 16%, passando de 7.892 quilômetros quadrados para 6.624 quilômetros quadrados, segundo a estimativa preliminar do Inpe.
ISA entrevistou representantes de organizações da sociedade civil que conhecem a situação das TIs mais desmatadas. Em muitos casos, como no centro e sudoeste do Pará e em Rondônia, houve uma intensificação de processos crônicos de invasão por causa da ausência ou ineficiência da fiscalização. Pelo mesmo motivo, em outros casos, como no sul do Amazonas, as frentes de desmatamento no entorno vinham se aproximando e adentraram as TIs.
Cenário incerto, Funai e Ibama
Embora essas áreas continuem bloqueando os desmates, medidas e propostas contra o meio ambiente e os direitos indígenas que partem do governo Temer e do Congresso tornam o cenário incerto, a exemplo da ideia de se permitir o arrendamento das TIs (saiba mais), avaliam especialistas e organizações indigenistas.
“Se houver uma fragilização da legislação de proteção das Terras Indígenas, admitindo-se, por exemplo, a redução dessas áreas, assim como se houver um processo mais expressivo de redução de Unidades de Conservação (UCs) em várias partes da Amazônia, teremos seguramente a fragilização dessa função de barreira de contenção ao desmatamento”, analisa o sócio fundador do ISA Márcio Santilli. Ele acredita que, por enquanto, ações de fiscalização em áreas e regiões específicas podem reverter a situação.
Lista das TIs mais desmatadas no período
O assessor do ISA Juan Doblas acredita que a situação atual é agravada pela descoordenação e falta de vontade política do governo. “Uma novidade dos últimos dois anos é a ausência de uma política específica para resolução de conflitos em TIs. O Estado não está querendo resolver os conflitos e, diante disso, a tendência é eles recrudescerem”, afirma.
A queda de recursos e a precarização da estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai) também são apontadas como fatores para o aumento do desmatamento nas TIs. O orçamento total do órgão caiu de mais de R$ 740 milhões para menos de R$ 540 milhões, entre 2013 e 2017, em valores corrigidos pela inflação. O orçamento atual fica próximo ao de dez anos atrás, também em valores reais. Em março, o presidente Michel Temer assinou um decreto que extinguiu 87 cargos comissionados, de 770 então existentes no órgão indigenista, quase 12% do total. Os escritórios regionais estão entre os setores mais atingidos.
A Funai não respondeu os pedidos de entrevista até o fechamento desta reportagem.
A frequência e a dimensão das operações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) também são consideradas insuficientes. “Ao longo deste ano, o Ibama realizou operações em mais de 60 TIs”, diz a assessoria do órgão em nota enviada à reportagem .“A gestão das Terras Indígenas (TIs) no país é atribuição da Fundação Nacional do Índio (Funai), responsável pelo monitoramento e acompanhamento dos processos de invasão e eventual necessidade de desintrusão das áreas”, continua o texto. “A atuação do Ibama em TIs ocorre após análise de alertas de desmatamento enviados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e denúncias da Funai e de organizações indigenistas e de defesa dos povos indígenas. A fiscalização ambiental na Amazônia prioriza a atuação das equipes em regiões consideradas mais críticas e nos polígonos de desmatamento com maior potencial de evolução”, finaliza a nota.
Campeã e vice-campeã do desmatamento
TI Cachoeira Seca/PA
A análise do ISA sugere que grandes projetos de infraestrutura continuam estimulando a imigração descontrolada e a capitalização de alguns setores econômicos, o que, por sua vez, promovem mais desmatamento.
É o caso da campeã e vice-campeã da devastação, entre 2016 e 2017: as TIs Cachoeira Seca e Ituna-Itatá (PA). A primeira fica próxima à rodovia Transamazônica e ambas estão na zona de influência da hidrelétrica de Belo Monte. Desde 2011, com o início da construção da usina, as invasões e o desmatamento aumentaram, incentivados por políticos e grileiros.
Recentemente, a concentração fundiária vem empurrando pequenos posseiros para dentro da TI Cachoeira Seca. A retirada dos ocupantes ilegais arrasta-se há anos e o plano de proteção da área não sai do papel, ambas as medidas previstas como condicionantes do licenciamento da hidrelétrica. Juan Doblas comenta que o ritmo do desmatamento e das invasões varia ao sabor da presença dos órgãos do governo e das idas e vindas do processo de desocupação dos não indígenas. Ele afirma que o Ibama e a PF vêm combatendo o roubo seletivo de madeira, mas não as invasões de produtores rurais. Doblas concorda que os órgãos oficiais parecem aguardar o desfecho do longo processo de desintrusão.
TI Ituna/Itatá/PA
Grileiros têm registrado Cadastros Ambientais Rurais (CAR) na TI Ituna-Itatá para tentar garantir posses na área, interditada para garantir a segurança de índios isolados, o que torna a situação ainda mais grave. Pequenos agricultores expulsos do reservatório de Belo Monte e que receberam indenizações e comerciantes locais são os principais invasores. Além disso, a prefeitura de Altamira também asfaltou a via de acesso principal à região, o que incentiva mais invasões. A TI deveria servir como barreira de proteção no caminho entre outras áreas protegidas e a Transamazônica.
A paralisação da desocupação dos não índios também seria uma das razões para o aumento da derrubada da floresta na TI Apyterewa, também no centro do Pará. Doblas diz que o loteamento político do escritório local do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), responsável por relocar os produtores rurais, está prejudicando o processo.
“Tanto na TI Apyterewa quanto na Cachoeira Seca, o que há é uma perda do controle territorial da parte do Estado, por causa da inação do próprio Estado em relação aos conflitos”, completa.
Criminosos usam postos da Funai como base
TI Karipuna/RO
O norte de Rondônia, onde estão as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, também apresenta altos índices de desmatamento há anos. O Estado abriga três das dez TIs mais desmatadas em 2016-2017 (veja tabela).
Ivaneide Bandeira Cardozo, coordenadora de projeto na Kanindé - Associação de Defesa Etnoambiental, denuncia que, nas TIs Uru-Eu-Wau-Wau e Karipuna, grileiros e madeireiros ilegais estão usando os próprios postos da Funai como base para suas atividades. O órgão não teria recursos nem para manter os escritórios funcionando. Os criminosos também estariam cooptando algumas lideranças indígenas, o que não acontecia até pouco tempo.
Cardozo conta ainda que, por causa das eleições do ano que vem, políticos locais estariam incentivando as invasões e prometendo regularizá-las. Ela acredita que essa atitude foi estimulada pela redução da Floresta Nacional de Bom Futuro, em 2010, para acomodar e regularizar invasores.
TI Uru-Eu-Wau-Wau/RO
Para Cardozo, o desmatamento aumentou no conjunto de TIs e UCs principalmente no leste do Estado, na fronteira com Mato Grosso. “Se você for em campo, não há nenhuma área que não esteja com invasão, seja de grileiro, madeireiro ou pecuarista”, avalia. Ela aposta que, apesar da queda estimada em 9% do índice do desmatamento total em Rondônia neste ano, o roubo seletivo de madeira aumentou, o que pode projetar a ampliação dos índices no futuro imediato - a extração seletiva de árvores em geral precede o “corte raso”, a retirada completa da vegetação, único tipo de desmatamento captado pelo levantamento do Inpe divulgado agora.
Há suspeitas de que um atentado ocorrido, há alguns dias, contra lideranças indígenas Paiter Suruí, em Cacoal (RO), seja uma represália de madeireiros ilegais expulsos da TI Sete de Setembro, a sétima TI mais desmatada na Amazônia entre 2016 e 2017 (leia aqui).
Aumento de escala e velocidade da destruição
A escala e a velocidade da destruição da floresta nas TIs também chamam a atenção. Os criminosos estão usando tecnologias e equipamentos de última geração. Os quase 900 hectares desmatados na TI Kayapó, no sudoeste do Pará, em 2016-2017, seriam fruto de uma nova onda garimpeira, promovida pelo desemprego e o aumento do preço do ouro, segundo Adriano Jerozolimski, coordenador executivo da Associação Floresta Protegida. Ele tem informações de que, em alguns momentos, cerca de 120 retroescavadeiras de grande porte estariam funcionando 24 horas por dia, no nordeste da área.
Jerozolimsk acrescenta que a base dos criminosos é Ourilândia do Norte. Os garimpeiros estariam cooptando e subornando lideranças indígenas. Madeireiros ilegais aproveitam as estradas abertas pelo garimpo para saquear a floresta.
TI Kayapó/PA
Na avaliação de Jerozolimski, as operações de fiscalização do Ibama não têm sido suficientes. Um ou dois meses depois, os criminosos acabam voltando. “O período de ausência de Estado é tão grande que, na percepção das populações locais, o ilícito passa a ser banalizado. As pessoas passam a achar aquilo uma atividade normal. Quando o Estado vem e age, há uma reação para defender o ilícito”, comenta. Ele lembra que recentemente garimpeiros fecharam a PA-279, principal rodovia da região, com apoio de políticos, em protesto contra as ações do Ibama.
O sul do Amazonas é uma das regiões com frentes de desmatamento mais dinâmicas da Amazônia, há alguns anos, mas, até meados 2016, a TI Peneri-Tacaquiri, a nordeste de Boca do Acre, estava praticamente intocada. Uma fonte local conta, porém, que o desmatamento no município vinha se intensificando na região, até que atingiu a área através de um ramal aberto irregularmente nos últimos meses.
Os dados do Inpe revelaram um “buraco” de cerca de 800 hectares na floresta na TI. O fato de se tratar de uma derrubada contínua, identificada como um único polígono nas imagens de satélite, é um indício de que o responsável seja uma única pessoa. O enorme desmate teria sido produzido em 15 dias, segundo a mesma fonte. Ainda de acordo com ela, o objetivo é estabelecer fazendas de gado, financiadas por um grande esquema de empresários do Acre, mas cuja base é Boca do Acre. Há suspeita de envolvimento de políticos e servidores públicos.
TI Peneri (AM)
Oswaldo Braga de Souza, reportagem; Alana Almeida de Souza e Tiago Moreira dos Santos, pesquisa e mapas.
ISA

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