quarta-feira, 7 de junho de 2017

BELO SUN: NO XINGU, MAIS UMA OBRA AMEAÇA O MEIO AMBIENTE

Belo Sun: febre do ouro ameaça o Xingu

Depois do impacto de Belo Monte, região será rasgada por mina gigantesca


Impacto anunciado: placa aponta local onde mina de ouro de Belo Sun, na região da Volta Grande do Xingu, será instalada (Foto de André Teixeira)

(DE SENADOR JOSÉ PORFÍRIO, PA) Mais de três décadas depois de Serra Pelada, a febre do ouro faz arder novamente o Sudoeste do Pará. A 400 quilômetros da antiga mineração, nascerá Belo Sun, no município de Senador José Porfírio, uma mina de ouro moderna e gigantesca, que se estenderá por mais de 3km, deformando a geografia local. O empreendimento milionário – avaliado em R$ 1,2 bilhão – não assusta ambientalistas, ribeirinhos e povos tradicionais pela semelhança com o garimpo do passado. Aterroriza, sim, por lembrar a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, também instalada na região da Volta Grande do Xingu, que deixou para trás um rastro de decepção e devastação. No entanto, nem todos compartilham do temor de encararem mais remoções, impacto ambiental e degradação da cultura dos moradores. Para muitos, Belo Sun é a promessa de melhorias na qualidade vida, mais dinheiro no bolso e emprego garantido.

A fim de investigar os possíveis impactos da obra – ainda não iniciada – no rio Xingu, no ambiente e na preservação da identidade cultural das populações locais, o Projeto #Colabora começa hoje a publicar uma série de reportagens sobre Belo Sun. Nossa esquipe esteve na região no início de maio, em uma viagem que foi, em parte, custeada por financiamento coletivo.

Guerra de liminares

Em janeiro último, a Secretaria estadual do Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) concedeu a Licença de Instalação (LI) para a mina de responsabilidade da Belo Sun Mineração, subsidiária da canadense Belo Sun Mining Corp. . Quatro meses depois, em abril, o empreendimento foi suspenso por pressão do Ministério Público Federal do Pará, por decisão do Tribunal Regional Federal (TRF), que alegou terem faltado estudos sobre o impacto do projeto na vida das populações indígenas da região. O Ministério Público do Estado do Pará também entrou na briga. O órgão obteve liminar suspendendo a obra e apontando erros na aquisição das terras. Apesar do movimento contrário à instalação do projeto, existe um consenso entre os moradores que é só uma questão de tempo até a obra sair do papel. Mas, afinal, por que Belo Sun assusta tanto?

Essa obra vai destruir o pouco que resta do nosso rio (Xingu), da 

nossa natureza, do nosso estilo de vida. Os estragos podem ser 

enormes, e podemos ter uma nova Mariana aqui na Volta 

Grande. Vamos lutar para que isso não aconteça

Antônia Melo
liderança do Xingu

Além da lembrança de Belo Monte, outro fantasma aterroriza organizações que atuam na Volta Grande, como o Xingu Vivo e o Instituto Socioambiental (ISA): Belo Sun representa, para eles, a ameaça de uma catástrofe ambiental comparável à de Mariana, considerada a maior tragédia ambiental do Brasil e a mais relevante do mundo envolvendo rejeitos minerais.

“Essa obra vai destruir o pouco que resta do nosso rio (Xingu), da nossa natureza, do nosso estilo de vida. Os estragos podem ser enormes, e podemos ter uma nova Mariana aqui na Volta Grande. Vamos lutar para que isso não aconteça”, enfatiza Antônia Melo, do Xingu Vivo, uma das lideranças mais ativas e respeitadas da região.

Gigante do ouro

Senador Porfírio. Foto de André Teixeira
O município de Senador Porfírio: esperança de desenvolvimento com impostos na cidade, que hoje arrecada R$ 100 mil por mês (Foto de André Teixeira)

Tudo que envolve Belo Sun é grandiloquente: dos valores do projeto ao volume de ouro que será explorado. Só na fase de implementação do empreendimento, prevista para durar dois anos, a Belo Sun Mining do Canadá está planejando investir cerca de R$ 1,2 bilhão. Nesse período, o município de Senador José Porfírio, ou Souzel, como é chamado pelos moradores, poderá receber R$ 19 milhões em impostos, mais R$ 5 milhões anuais durante os 12 anos previstos de funcionamento da mina, além de R$ 3 milhões anuais na forma de royalties. Para um município onde esgotamento sanitário não existe, o aporte financeiro parece um sonho, sem contar com os empregos diretos e indiretos que poderão serão gerados. Para se ter a dimensão do impacto dessa mina nos cofres públicos, a cidade hoje arrecada R$ 100 mil por mês.

“A nossa expectativa é que esse empreendimento venha fortalecer Senador José Porfírio, tão carente de estrutura. Esperamos que o município se desenvolva, que Belo Sun gere emprego e renda para toda a região “, pondera Vanessa Anabele, secretária de Educação de Souzel, num pensamento que representa a administração pública local.

Ouro dos tolos?

Serra Pelada. Foto de Luisa Ricciarini/ Leemage/ AFPSerra Pelada.
 Foto de Luisa Ricciarini/ Leemage/ AFP

Diante da pobreza e da falta de perspectiva dominantes em Souzel, a mineração acena com o velho sonho de riqueza moldado por Serra Pelada na década de 1980, que levou milhares de pessoas ao sudoeste do Pará. E a corrida do ouro, mesmo que incerta, já começa a transformar a região.

A Vila da Ressaca, localidade mais próxima ao empreendimento, hoje habitada por garimpeiros artesanais, já vê crescer sua população – não param de chegar famílias de outras regiões do estado. O regresso de antigos garimpeiros, que saíram em busca de outras oportunidades Brasil afora, também movimenta o local. O comércio agradece, e muitos moradores fazem contagem regressiva para Belo Sun começar a operar. Outros sonham com gordas indenizações para deixar os vilarejos em busca da cidade grande.

Mas esse sonho é ouro dos tolos. Não há possibilidade de surgirem novos ricos ou mesmo muitas oportunidades de emprego. Belo Monte é uma mina moderna, um sistema industrial que tem as máquinas como grande aliadas, o que reduz drasticamente a participação de seres humanos na operação. Além disso, tudo que for extraído tem dono – a empresa canadense. Os funcionários trabalharão em troca de salário fixo, e não daquela pepita que mudava a vida dos garimpeiros do passado.

Xingu sobreviverá?

O medo em relação a Belo Sun é legítimo. Depois do desastre de Mariana, a segurança em torno das minas de extração de ouro em escala industrial foi posta em xeque em todo o mundo. A empresa afirma que o projeto tem padrões diferentes para a área de acúmulo de rejeitos e assegura que não há riscos de contaminação do maltratado Rio Xingu. Até as promessas de desenvolvimento da região geram dúvidas, diante das inevitáveis comparações com Belo Monte. A usina hidrelétrica não cumpriu boa parte das contrapartidas, o que acirra a desconfiança da população e dos ambientalistas Nas próximas reportagens, estarão em foco o modo de vida das comunidades ribeirinhas, a palavra da empresa, o temor em relação às remoções e palavras de especialistas sobre os possíveis impactos no rio e no ambiente em geral.

Só o tempo dirá se Belo Sun vai se transformar ou não em Belo Monstro. É esperar para ver.


Claudia Silva Jacobs
Carioca, formada em Jornalismo pela PUC- RJ. Trabalhou no Jornal Dos Sports, na Última Hora e no Globo. Mudou-se para a Europa onde estudou Relacões Políticas e Internacionais no Ceris (Bruxelas) e Gerenciamento de Novas Mídias (Birkbeek College). Foi produtora do Serviço Brasileiro da BBC, em Londres, onde participou de diversas coberturas e ganhou o prêmio Ayrton Senna de reportagem de rádio com a série Trabalho Infantil no Brasil. Foi diretora de comunicação da Riotur por seis anos e agora é freelancer e editora do site CarnavaleSamba.Rio. Está em fase de conclusão do portal cidadaoautista.rio.  


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