terça-feira, 11 de abril de 2017

BRASIL: "FAÇAM O QUE EU FALO, NÃO FAÇAM O QUE EU FAÇO"?

Líderes do Brasil pregam austeridade - mas não para eles

POR SIMON ROMERO
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Durante um protesto no Rio de Janeiro, policiais são impedidos de chegar as suas bases por pessoas exigindo melhores salários. Brasileiros ricos prosperam, enquanto milhões caem na pobreza. 

(Yasuyoshi Chiba/Agence France-Presse — Getty Images)

SÃO PAULO — Na adoentada economia brasileira, milhares de empregos desaparecem por dia, os Estados esperneiam para pagar policiais e professores e o dinheiro para refeições subsidiadas anda tão curto que um parlamentar sugeriu que os pobres “podem comer um dia sim, um dia não”.

Mas nem todos estão penando. Funcionários do setor jurídico festejam um aumento salarial de 41%. Parlamentares em São Paulo, maior cidade do Brasil, votaram para elevar em 26% o próprio salário. E o Congresso, que se prepara para cortar benefícios de aposentados em todo o País, está permitindo agora a seus membros aposentar-se após apenas dois anos de mandato.
O Brasil luta para sair da pior crise econômica em décadas, e o presidente Michel Temer diz que, para isso, o País precisa reduzir gastos públicos. Entretanto, o pródigo banquete de 300 talheres à base de camarão e filé mignon pagos com dinheiro público, que ele deu para persuadir congressistas a aprovar cortes orçamentários, não ajuda a melhorar seu índice de aprovação.
As medidas de austeridade de Temer estão alimentando um feroz debate sobre como os brasileiros mais ricos e poderosos vêm protegendo sua riqueza e privilégios num momento em que a maior parte do país sofre com o duro declínio econômico.
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O presidente do Brasil, Michel Temer, quer impor um teto para os gastos federais pelos próximos 20 anos.
(Andressa Anholete/Agence France-Presse — Getty Images)
“O governo fala em austeridade para todos, mas empurra a conta para os mais vulneráveis”, disse Giovana Santos Pereira, uma professora de 25 anos. “Seria cômico se não fosse trágico.”
Muito da ira popular gira em torno do ponto fundamental da iniciativa de austeridade de Temer: seu sucesso ao persuadir um Congresso sacudido por escândalos a impor um teto para os gastos federais pelos próximos 20 anos.
Temer, que assumiu o poder no ano passado após apoiar o impeachment de sua predecessora, Dilma Rousseff, diz que o teto é necessário para reverter o crescente déficit orçamentário.
Investidores aplaudiram a medida, considerando-a uma virada na maior economia da América Latina. Mas críticos atacam o teto de gastos dizendo que ele pode prejudicar os pobres pelas próximas décadas, especialmente em áreas como a educação. Philip Alston, relator das Nações Unidas sobre pobreza extrema e direitos humanos, diz que o teto põe o Brasil “num retrocesso social por vontade própria”.
O governo Temer resiste aos apelos para aumentar impostos para os brasileiros mais ricos, que gozam do que alguns economistas descrevem como o mais generoso sistema de taxação para ricos entre as grandes economias.
“O sistema foi planejado para perpetuar a desigualdade, e Temer dobra a aposta na tese de que o Brasil precisa de um choque de austeridade no estilo da Grécia”, disse Pedro Paulo Zahluth Bastos, economista da Universidade de Campinas.
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Uma sem-teto no último verão no Rio, onde programas de benefícios para os mais pobres estão sendo cortados. 
(Mario Tama/Getty Images South America)
Temer não é um presidente popular: seu índice de aprovação é de apenas 10%. Ele diz que está revertendo o estilo gastador de governos anteriores. A economia brasileira encolheu cerca de 4% em 2016, mas o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que “a recessão acabou”. O investimento estrangeiro aumentou e a Bolsa de Valores brasileira teve um dos melhores desempenhos do mundo em 2016. Temer previu que a economia crescerá 3% no próximo ano.
Há, porém, Estados enfrentando greves paralisantes do funcionalismo contra salários baixos ou não pagos. No Rio de Janeiro, que sediou a Olimpíada em agosto, as autoridades estão fechando restaurantes que fornecem refeições subsidiadas aos pobres, elevando tarifas de energia elétrica para residências e extinguindo benefícios sociais. No entanto, o governador do Rio, a exemplo dos de outros Estados, dispõe de um jato particular para viagens pelo País. E juízes do Estado, que já são bem pagos, pressionam pela contratação de novos servidores para seus escritórios, ao custo de milhões de reais – até que o projeto chegou ao conhecimento público. A indignação que se seguiu forçou-os a engavetar a ideia.
Uma onda de escândalos de corrupção envolvendo líderes políticos nacionais também alimenta sentimentos antiestablishment antes da eleição presidencial de 2018, abrindo caminho para figuras extravagantes como Jair Bolsonaro, deputado ultranacionalista que fustiga imigrantes e defende a tortura para traficantes de drogas.
Numa pesquisa, apenas 1% dos entrevistados disse que votaria em Temer, cuja eventual condenação por violar limites financeiros de campanha pode torná-lo inelegível.
Uma sensação de desesperança aflige muitos brasileiros. Ana Cristina Silva, de 49 anos, que perdeu o emprego em dezembro, afirmou que “eles só pensam neles mesmos”, referindo-se ao governo Temer. “É um absurdo. Os que não precisam de aumento são os que recebem.”
Colaborou Dom Philips e Paula Moura, reportagem

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