segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SEXO: AS RELAÇÕES NA ERA VIRTUAL

SEXO, INTERNET E PORNOGRAFIA – 
AS RELAÇÕES NA ERA VIRTUAL

A sociedade contemporânea está a cada dia mais hipersexualizada. O consumo é frequentemente associado ao sexo e a busca incessante por prazer. Vivemos em um mundo onde a ideia da satisfação imediata é vendida em qualquer esquina, sem o menor constrangimento. Crianças, adolescentes e adultos são tratados como iguais, como meros consumidores de sexo, sem nenhuma proteção, orientação e reflexão. A arte pode nos ajudar a pensar e a mudar os nossos conceitos!
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O Retrato de Sasha Grey | O título faz uma referência à obra O Retrato De Dorian Gray, escrita por Oscar Wilde. A intimidade entre o livro e o quadro vai além. Em um culto à juventude, ambos protagonistas se colocaram em situações de exposição
Nos dias de hoje a pornografia está em todos os lugares. Banalizada, valorizada e compartilhada em qualquer mídia, ela virou um produto de consumo em massa. Na Internet há uma infinidade de sites onde imagens, vídeos e filmes circulam livremente até chegar nas redes sociais. O apelo sexual massificado está também nas bancas de revistas, nas propagandas de cerveja, nos editoriais de moda, nos comerciais de perfumes, comida, carros, motos e até de sabão em pó. A cultura pop segue o coro exaltando o sexo através das performances sensuais e eróticas dos seus ídolos, onde um discurso de liberdade e ousadia é reiterado. Os publicitários, empresários e produtores acreditam que sexo vende. E a sociedade de consumo, cada dia mais bombardeada de estímulos, compra esta ideia.
A exposição “Porn Cake”, do artista Guilherme Araújo, em Belo Horizonte, usa as artes visuais e a técnica da colagem para discutir a hipersexualização da nossa cultura e levantar questões pertinentes. As obras chamam atenção para o caráter crítico e sagaz do artista. Não é apenas a exposição de colagens incríveis que parecem pinturas reais, mas uma discussão profunda, importante e atual.
Os tumblrs pornográficos foram a principal inspiração do artista. Para ele, a pornografia, em suas variadas vertentes, movimenta a Internet ao redor do mundo, influenciando definitivamente a cultura pop e, consequentemente, todas as relações da contemporaneidade. Seu trabalho, além de esteticamente rico e inovador, propõe uma reflexão oportuna sobre a cultura hipersexual da nossa sociedade.
Nesse contexto, consumimos, principalmente, em todos os meios de comunicação e produtos culturais, o corpo feminino que é objetivado como uma forma de diversão e prazer. O culto ao corpo perfeito e a padrões de beleza inatingíveis também são fundamentais para este maketing, aliados ao culto da juventude eterna e da estética branca, magra e loura. Ambos recursos funcionam como mobilizadores de homens e mulheres que se transformaram em reféns de uma indústria que vende sexo e insatisfação permanente.
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Sexo e poder
A sociedade contemporânea se tornou uma cultura hipersexualizada por um exagero de mensagens subliminares e/ ou diretas, de conteúdo sexual, muitas vezes sem nenhum tipo de contexto, que tem em comum o objetivo final de vender produtos. Mas essa hipersexualização não parece refletir um desejo de mais sexo pela sociedade, e sim a sua carência por um sexo bom e de qualidade. Muitas destas mensagens revelam fantasias, medos e preconceitos que não são explorados e discutidos de maneira natural e consequente. Há uma padronização do sexo em si, explicitamente, do corpo feminino, que é tratado como objeto, produto, um bem de consumo caro e inacessível.
Na verdade, toda esta exploração deveria refletir nossa liberdade sexual, mas não, ela reflete a nossa escravidão, o quanto somos influenciados por um sistema que transforma tudo, até mesmo nosso prazer íntimo e emoções, em algo descartável, vazio, onde a superficialidade comanda. Tanto na propaganda como na TV, filmes e Internet, o sexo é cada vez mais visto e apresentado como produto, algo que pode ser comprado para satisafazer necessidades imediatas de prazer, de poder, ostentação e vaidade.
Esse discurso subliminar e, muitas vezes, direto, propagandeador de sexo/poder ainda se sustenta porque nossa sociedade continua muito machista, dirigida por uma minoria de homens heteros, brancos e ricos. Eles são poderosos porque mandam nas maiores empresas do mundo, ainda que a população feminina terrestre seja maior que a masculina.
As mulheres, obviamente, se sentem menosprezadas por serem tratadas apenas como algo a ser consumido e possuído pelos outros. Se veem dilaceradas por uma visão de mundo que nega sua individualidade, sua alma e sua essência. Mesmo as mulheres não declaradas feministas se sentem menos gente, menos pessoa e cidadãs. Ainda que existam mulheres que se prostituam fisicamente, que vendam seus corpos e imagens à serviço de uma lógica capitalista, que capta a atenção da sociedade para a aparência, para o ter em detrimento do ser, estas mulheres estão apenas jogando o jogo, assim como todos nós que vivemos neste sistema.
Esse jogo conquista mentes, é impositivo e opressor. A opção de sair não é fácil, há pouco ou nenhum apoio lá fora. Há toda uma sociedade insana gritando para você continuar, que você vai se dar bem! Ou seja, que você vai ganhar muito dinheiro com sua beleza, com sua sensualidade, com o seu sexo, com o seu vazio existencial! A sociedade do sexo/poder, hipersexual, ocidental, imagética, semiletrada e virtual, é também muito medrosa. O medo da exclusão é grande, persuasivo e funciona como um entorpecente.
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Educação sexual X pornografia
A escola, os nossos pais, a mídia e o Estado não discutem o poder do sexo na sociedade porque sequer dão educação sexual básica, laica e de qualidade. A maioria dos pais, escolas e instituições também não estão preparados, bem informados e abertos a conversar francamente sobre o assunto. Mas há muita gente preocupada e que se mobiliza por esta causa – são educadores, professores, pesquisadores, psicólogos e diversos profissionais que estão tentando tratar a questão com a naturalidade e a complexidade devida. Hoje, há mais conhecimento disponível, mais diálogo e discernimento, mas o que falta é investimento efetivo em projetos educativos interdisciplinares que ofereçam uma leitura mais ampla, diversa e contextualizada.
Após algumas décadas de intensa revolução sexual, ocorrida a partir dos anos de 1960, que libertou, essencialmente, as mulheres de um desejo reprimido, o sistema rapidamente cooptou essa liberdade de ser e de viver a nossa sexualidade. Se há, por um lado, mensagens em que as mulheres expressam seus desejos e necessidades, há, por outro lado, muito mais mensagens em que o homem enfatiza o seu desejo de dominação através do sexo. A desigualdade continua e o sexo ainda não deixou de ser tabu.
Nesse cenário, a pornografia encontrou um terreno propício na Internet e a produção de vídeos, filmes e fotos é cada vez maior e sem quase nenhum controle do seu trânsito na rede. O que aumenta a responsabilidade dos pais e das escolas na educação sexual da juventude, em como conduzir uma abordagem educativa atual, adequada e não moralista. Além disso, é preciso lutar de forma ativa contra a erotização e adultização precoce das crianças. É nosso dever proteger e garantir a infância, zelar por uma boa educação e pela construção de um futuro melhor.
Sem dúvida, a Internet é uma estrada de democratização da informação e do conhecimento. Um caminho sem volta que abre possibilidades infinitas para o homem e a mulher experimentarem e vivenciarem sua sexualidade. Ela é uma ferramenta maravilhosa para o nosso desenvolvimento e aprendizado em todas as áreas e em todos os sentidos, mas também pode ser uma cilada, uma armadilha.
O que buscamos na Internet e na vida virtual? Nas redes sociais, nos sites de relacionamentos, nos vídeos, blogs, textos e comentários de todo tipo? Há uma busca por identificação, por companhia, por validação, por prazer, por um compartilhar de anseios, desejos e ideias. O mesmo sentimento que buscamos na vida real. Ao mesmo tempo, há o sentimento de se preservar, de se esconder, de evitar o real contato e todas as chateações que ele pode gerar. O homem e suas eternas contradições. Ainda não encontramos o meio termo.
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Relacionamentos, distorções e carências
Muita gente vai para a Internet para dissimular ou expressar seus sentimentos, se esconder e mostrar suas verdades, mas sem os enfrentamentos reais e diretos do ao vivo. Em relação ao sexo, a rede não nos proporciona uma experiência real de relacionamento, é tudo muito superficial, sem cheiro, sem tato, sem sentimento, sem nuances de cor e de luz. A vida real é muito mais interessante, rica e intensa.
A propagação da pornografia na rede reflete que ainda há muito o que conquistarmos em matéria de maturidade, respeito ao outro e liberdade de expressão sexual. Hoje, felizmente, há muitos desejos eróticos compartilhados entre os casais, há mais satisfação amorosa e sexual do que no passado, embora haja mais separações e menos romantismo.
O ponto é que vivemos uma busca orientada pela satisfação imediata, por relacionamentos rasos e sem compromisso que não proporcionam o desenvolvimento e o aprofundamento das relações e o crescimento pessoal e social dos indivíduos. O panorama é de uma insatisfação geral, de falta de profundidade e de real envolvimento e de uma escalada crescente por quantidade, por mais e mais prazer.
Aliado a isto, convivemos com uma enxurrada constante de imagens, vídeos e filmes em que ainda predominam a visão do sexo como meio de poder e de afirmação entre os homens, onde a mulher é subjugada, objetivada e violentada de forma brutal. E o que é pior, tudo isso ainda é reproduzido e visto como algo normal.
Mas o sexo, a Internet e a pornografia em si não são problemas. O que precisamos refletir é como usamos as coisas e as pessoas em nosso mundo. Com que propósito estamos fazendo do sexo um produto, algo banal, produzido em escalas megalomaníacas, super valorizado mas esvaziado de sentido, elitizado, um símbolo de poder e de domínio em nossa sociedade? Há algo de real, de verdadeiro e de enriquecedor nisto? Não, definitivamente não. Não é só o sistema que precisa mudar! Antes de tudo, é preciso reorientar nossas vontades, nossas consciências e afastar os desejos sombrios, que alimentam um ego desequilibrado, hedonista e autodestrutivo.
A nossa principal carência é por aquilo que o sexo sozinho jamais irá preencher. Sexo é estética, é poesia, prazer, é a fruição das formas. O nosso maior desejo, no fundo, é por ser amado. Amor é diálogo, é prosa, companhia, é a nossa essência, a forma pura. Ele é o alicerce de tudo, é onde nasce e floresce a vida, mas é também o nosso maior buraco.
Amor não é apenas uma ligação afetiva, um sentimento de paixão e adoração. Vivenciar o amor próprio e o amor ao próximo nos transforma em pessoas melhores, mais felizes, criativas e livres. Amor é troca, cooperação, tolerância, respeito e perdão. Ele dá sentido à vida. Por isso, ele é forte, não se vende, não se cansa, é corajoso e bom. Ele é capaz de entrar por corações estilhaçados, corroídos pelo ódio, e flanar levemente. Só ele pode curar nossos machucados e abrir nossas cabeças para relacionamentos mais construtivos, verdadeiros e plenos.
Mas não se engane! Em nossa cultura hipersexualizada, o amor de verdade não é um folhetim romântico com final feliz. Não é como novela, vídeo ou filme comercial. Amor não se compra, pois é uma dádiva. Ele é original, uma obra única, uma força poderosa dentro de cada um de nós!

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ADRIANA BORGES

Ariana, idealista e aventureira. Curto a natureza e desbravar o mundo. Estou descobrindo o sentido da vida. Quero fazer muitas coisas mas ainda não encontrei tempo. Um dia quero perder o medo e pular de bungee jump!.

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