quarta-feira, 24 de agosto de 2016

POLÍTICA: CONSERVADORISMO, CASA EM ORDEM!

Voltemos ao conservadorismo
A modernidade criou a irresponsável ideia de que evolução é tudo aquilo que se consegue após transpassar certo estágio histórico. Na verdade, podemos escutar o passado sem sermos reacionários
por Pedro Henrique conservadorismoFoto: Reprodução/Internet
Vivemos numa verdadeira horda de ideologias, num palacete de ideias políticas que se digladiam mutuamente todos os dias na sociedade. Esses embates acontecem nas academias de ensino do país, nas mídias televisivas e escritas, e, agora, nas redes sociais. Percebemos que os dois lados discordam, em linhas gerais, em suas visões abstratícias. Por exemplo, em suas visões de liberdade e/ou de igualdade.

Esses são, substancialmente, os alvos das principais ideologias políticas reinantes na modernidade. Podemos classificá-las assim: socialismo/ comunismo; liberalismo/ libertarianismo. Esses arranjos ideológicos, trabalhando com as abstratas ideias de liberdade e igualdade, e tudo o que advém, a jorrar, como consequência das atitudes políticas de cada opção escolhida, fazem-se ser ouvidos com doutrinas pedantes e promessas utópicas.
Não obstante, ambas as ideologias trabalham sobre um mesmo campo de ação, andam sobre uma mesma égide política, isto é, a da evolução social sem limites. Na política mundial, hoje, trabalhamos politicamente somente com duas posições majoritariamente relevantes, o liberalismo e o socialismo (e as declinações extremistas de ambas). Isso quer dizer que trabalhamos basicamente com dois arranjos político-doutrinais progressistas, duas visões políticas que agem e se constroem na procura de evoluir tecnicamente, economicamente e socialmente, sem levar em conta as tradições e valores sociais de outras épocas que nos sucederam. Dessa forma, o palacete de ideias a que me referi acima torna-se uma sala modernista, alguma obra arquitetônica desconjuntada.
Ou seja, o debate político acontece somente em partes, pois o que realmente diferencia ambos os lados é tão-somente a escolha da via pela qual se chegará à utopia que tanto se espera. O debate se resume, em linhas gerais, sobre qual seria a estrada mais adequada para buscar o fim último de uma sociedade verdadeiramente evoluída e perfeita.
É verdade, e devemos dizer claramente, que esse fim último difere em ambas as ideologias já citadas. O conceito final de uma sociedade evoluída, para um liberal, é diferente para um socialista (ou comunista, já que o socialismo é um projeto de transição, dizem os comunistas). Mas há uma verdade que as une, a verdade de evoluir sem ter em conta as heranças do passado. Este é um parâmetro idêntico a ambos.
Por essas e outras que o conservadorismo, ainda que não se identifique como ideologia, torna-se necessário no debate político atual. Fazer uma evolução sem ter firmes bases no passado é como praticar bungee jumping sem estar amarrado a nada. A modernidade criou a inconcebível e irresponsável ideia de que evolução é tudo aquilo que se consegue após transpassar certo estágio histórico.
A mentalidade ideológica, influenciada pelo iluminismo e pelo positivismo, funciona como que por compartimentos: a sociedade, uma vez avançada para estágio histórico seguinte, torna as comunidades anteriores — e seus conhecimentos — inacessíveis, retrógrados e sem funcionalidade alguma para o presente e para o futuro. Se eu fosse comunista, chamaria isto de “historicofobia”. Mas, como não sou, chamo-o de burrice política.
A democracia conservadora
O conservadorismo é essencial para a própria democracia. Se há outra ideia irresponsável, trazida à tona pela modernidade como sendo uma verdade indiscutível, é aquela que afirma ser democracia somente as discussões e sufrágios determinados ao curto espaço temporal em que vivemos. Uma espécie de aristocracia temporal, ou, para ser mais marxista: uma privatização do debate, levada a cabo pelos vivos.
Democracia deve ser aquele conceito social unitivo, que agrega não somente as opiniões da maioria de uma determinada região ou época. Democracia deve — ou deveria — ser uma comunhão de eras. “Os mortos têm de estar presentes nos nossos conselhos. Os antigos gregos votavam por meio de pedras; os mortos devem votar por meio de pedra tumulares”[1].
O conservadorismo, ao contrário do que a sociedade moderna afirma, é a democracia na forma mais profunda e verdadeira. O conservadorismo é aquela democracia que não age com preconceitos só porque alguns de seus membros já morreram, ou porque alguns outros ainda hão de nascer. A democracia conservadora nega-se a dar o próximo passo sem estar ancorado firmemente no passado.
Para os conservadores, não faz sentido pular cegamente na escuridão do amanhã sem saber ao certo o que foi o hoje. O progresso sem o passado é uma amputação, assemelha-se a um homem claudicante que, por não poder deixar um pé atrás para assegurar o passo seguinte, deve sempre andar pulando para frente, sem segurança alguma do que encontrará no próximo pulo.
A democracia dos mortos, como denominou Chesterton, é uma espécie de gratidão àqueles que gritam do passado para nos guiar para longe dos erros do presente, erros que muitas vezes eles já cometeram anteriormente – e, para que não se repitam, desejam nos alertar.
No fundo, a modernidade ignora o passado porque quer ser protagonista do futuro. É egocêntrica e burra, quer cravar seu nome na história deixando um legado para o futuro: ignorem a história, ignorem o passado. Todavia, há uma coisa que as ideologias e os ideólogos não levam em conta: um dia, irremediavelmente, serão história, serão passado. Se ensinarem seus netos a ignorar seus avós, provavelmente as sociedades futuras os ignorarão também. Quem pede para os outros ignorarem o passado está pedindo para também ser ignorado; o tempo é uma bagagem que ninguém deixa de carregar.
Por fim, a democracia dos conservadores não olha para a sociedade como sendo ela um contrato, um acordo negociável entre indivíduos. Os conservadores enxergam a sociedade como sendo uma grande família[2] que quer ver a sua posteridade tão gloriosa quanto um dia foi, ou é. Por isso mesmo o conservadorismo se apresenta como a saída mais sensata até mesmo para quem procura fazer evoluir essa mesma sociedade. Longe de qualquer atribuição meramente econômica ou qualquer tipo de revoluções tolas, o conservadorismo propõe uma evolução sensata e vagarosa, que leve em conta os exemplos e heranças daqueles que um dia passaram e deixaram sobre suas “pedras tumulares” os escritos proféticos de como nos guiarmos no presente[3].
Como podemos falar de democracia se não damos ouvidos àqueles que outrora geriram essa mesma sociedade? Como podemos falar em avanço se sempre estamos começando de novo; afinal, se o passado não interessa, nem mesmo de avanço poderemos falar, já que, por definição, o avanço requer um tempo determinado do qual se deslocou adiante.
O conservadorismo é aquela permanente ideia que nos diz que podemos escutar o passado sem sermos reacionários, que podemos progredir sem sermos insensatos; o conservadorismo nos lembra que, nesta efêmera passagem que vivemos, há sociedade além de mim, que há sociedade além de minha apequenada ideia política de mundo. O conservadorismo me lembra que eu sou um dos muitos pedreiros que constroem este lugar, e que não cabe aos pedreiros projetar um edifício supostamente melhor.
Referências:
[1] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia, 1ª Ed, Campinas: Ecclesiae, 2013, p. 78
[2] Ver: BURKE. Edmund. Reflexões sobre a revolução na França, 1ª Ed, São Paulo: Edipro, 2014, p. 56
[3] “Deixa livre a aquisição, mas assegura o adquirido”. Ibidem, p. 55

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