quarta-feira, 3 de agosto de 2016

EDUCAÇÃO: "A TECNOLOGIA PODE AJUDAR O ALUNO A ATINGIR SEUS OBJETIVOS."

A escola precisa de tecnologia? 

publicado em tecnologia por Paulo Guerra

"(...) a escola brasileira é uma escola cuja pedagogia é do século XIX, os professores são do século XX, e os alunos do século XXI (...)"
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Pensar qual é a relação ideal entre a tecnologia e a educação não é uma tarefa fácil. Isso ocorre porque não há nenhum filósofo clássico que tenha pensado sobre esta questão. Os gregos não se preocupavam em como inserir o Google nas salas de aula. Naquela época os problemas da sociedade eram diferentes, não existia nenhuma ferramenta semelhante à internet. Quero dizer com isso que esse abacaxi – a tecnologia e a escola – é um abacaxi que nós, homens contemporâneos, temos que descascar entre nós, sem a ajuda dos livros antigos. Por isso, apesar de ser muito importante para a sociedade como um todo, não é fácil responder à seguinte questão: ‘a escola precisa da tecnologia?’.
Antes de responder essa pergunta acredito que devemos compreender que a escola brasileira é uma escola cuja pedagogia é do século XIX, os professores são do século XX, e os alunos do século XXI. Inclusive, dizem que caso um homem do século XIX renascesse hoje, o único lugar que ele reconheceria seria a escola, porque ela continua sendo igual era antigamente. Por causa desse pensamento, não posso deixar de comparar a escola brasileira – tanto a pública quanto a particular – com uma empresa cujos instrumentos de trabalho são de última geração, mas os salários dos funcionários ainda é do século retrasado, quer dizer, um lugar onde não houve mudanças significativas. Nota-se, portanto, que a tecnologia é somente a ponta do iceberg deste problema monumental.
Rafael de Sanzio.JPG A escola de Atenas – Rafael de Sanzio
Mario Sergio Cortella, filósofo brasileiro nascido em Londrina, por meio dos seus escritos disse que “em maior ou menor escala, a tecnologia invadiu a sala de aula. Mas isso não significa necessariamente que o desafio do professor tenha mudado. Antes, na aula de Filosofia, de Matemática, de Biologia, quando o aluno ficava desenhando no caderno no fundo da sala, com a cabeça em cima da mesa ou lendo uma revista dentro do livro, qual era o motivo daquele comportamento? A aula que estava sendo dada. A diferença é que a tecnologia atual oferece uma multiplicidade de distrações. E o professor não pode ficar vigiando e supervisionando se o aluno está de olho no celular. Nem teria essa capacidade, inclusive porque o aparelho pode estar no colo, dentro de um livro, escorado na carteira da frente. O professor vai bloquear isso? Não. Como vai dificultar? Dando uma aula que tenha conexão com o aluno, senão ele a deixa de lado.”.
A meu ver, esse é o ponto fundamental da questão. O professor tem que aprender a conduzir seus alunos, utilizando inclusive a tecnologia como um meio para um fim mais nobre. Ou seja, a tecnologia, caso seja bem utilizada, pode ajudar o aluno a se desenvolver e atingir seu objetivo. Mas a pergunta que você, caro leitor, deve estar se fazendo é: ‘como fazer a tecnologia trabalhar em favor do aluno e do professor?’.
A filósofa brasileira, Viviane Mosé, tem a resposta que eu compartilho: “Quando eu dava aula na universidade não existia acesso à internet, então o que nós professores pedíamos aos alunos? Os dados. Você tinha que saber os elementos da tabela periódica e o ano que a família real chegou no Brasil. Hoje você não tem que saber essas informações, porque com qualquer celular é possível acessar esses dados.”. Ela completa dizendo que não é preciso apreender informações, mas aprender a usá-las. O novo desafio da escola consiste, portanto, em ensinar os alunos a usar a tecnologia para acessar os dados, pensar sobre os dados, interpretar os dados e partilhar essa informação da melhor maneira possível.
Historicamente falando nunca houve um projeto educacional consistente para os brasileiros, pois os portugueses e os estrangeiros tinham outras prioridades para o Brasil, eles se concentraram em explorar nossas riquezas. Não foi muito diferente também com relação aos nossos coronéis do café e com os militares da ditadura. A escola brasileira se acostumou a ensinar seus alunos a se submeterem às ordens dos outros, ao invés de ensinar-lhes a pensar criticamente, a elaborar suas ideias, a se tornarem criativos etc. E isso é uma pena, porque como todos os seres humanos, nossas crianças também são semelhantes às mudas que, caso sejam bem cuidadas, podem vir a se tornar belas árvores frutíferas.
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 Imagem do clip ‘Another Brick in The Wall’
Observem a capacidade das crianças de até seis anos de idade que usam de sua curiosidade para perguntar sobre tudo, elas questionam desde o porquê da água cair do céu até o porquê da terra ser redonda, elas tem sede de conhecimento. Mas, infelizmente, logo quando entram na escola elas são desestimuladas a questionar, e por isso passam a somente responder, perdendo assim a curiosidade que é própria do ser humano. Após anos na escola elas estão prontas para o trabalho, lugar onde passarão a vida sem questionar o chefe, se limitando apenas a obedecer às ordens, exercendo assim a mesma função, todos os dias, da mesma forma, durante toda a vida, como no Mito de Sísifo, livro escrito pelo filósofo Albert Camus.
Resumindo, eu acredito que a tecnologia na escola é algo fundamental, mas não essencial. O essencial é mudar o ponto de vista de quem faz educação no Brasil, implantando uma nova forma de ver a escola. Basta de escolas que se preocupam mais com o Enem do que com a formação do aluno, com a formação do homem e da mulher. Atualmente as empresas e o mundo necessitam de lideres que saibam se portar frente às dificuldades, que saibam criar e pensar por si mesmo; o modelo tradicional se tornou arcaico, um cidadão que pensa como robô aos poucos está se tornando um cidadão inútil para o convívio em sociedade. Daqui para frente, acredito que essa tendência vai aumentar, e a tecnologia na sala de aula tem que servir ao aluno, não o aluno servir a tecnologia. Não basta só colocar ou aceitar a tecnologia na escola, é preciso ir além, é preciso utilizá-la a nosso favor; se ela serve como uma memória potente, então não vamos perder tempo tentando decorar datas e informações, vamos aprender a interpretá-las, questioná-las, pensá-las, visando um profundo desenvolvimento intelectual para as novas gerações. 

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PAULO GUERRA

Paulo Guerra é escritor, autor do livro Grito. Segundo Fernanda Jimenez, mestre em Literatura Comparada na Universidade Autônoma de Barcelona, "Paulo Guerra é um desses escritores raros que aparecem de vez em quando."

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