quarta-feira, 17 de agosto de 2016

EDUCAÇÃO: "RESPEITO É BOM E TODO MUNDO GOSTA"

AO VAIAR ATLETAS DE OUTROS PAÍSES, TORCIDA BRASILEIRA ESCANCARA O RECALQUE CULTURAL DO PAÍS
Guilherme Macalossi
Brasil Aros Olimpicos1 Atenção, atenção: não existem Olimpíadas ...

É claro que Nelson Rodrigues estava certo ao observar o complexo de vira latas que domina a cabeça dos brasileiros. O comportamento de parte da torcida nas Olimpíadas é revelador de uma série de sintomas advindos desse problema mental coletivo que na verdade é uma espécie de recalque cultural do país.

Não há nada mais deprimente do que a massa se unir para prejudicar atletas de outros países. E são episódios assim que temos constatado nas mais diversas modalidades individuais. Quando esportistas estrangeiros se apresentam, principalmente os que acabam disputando diretamente com os brasileiros, a vaia vem sem piedade. Os torcedores urram e se comprazem da má performance dos concorrentes. É um espetáculo lamentável de desrespeito, falta de espírito olímpico e selvageria.

Ontem a noite, o talentoso Thiago Braz conseguiu um feito estupendo: Imprimiu um recorde mundial no salto com vara e ganhou a segunda medalha de ouro para o Brasil. Merece o aplauso e a consideração de todos nós. Agora, para que a torcida precisou atrapalhar o francês Renaud Lavillenie, ex-campeão olímpico e atual campeão mundial?

Em seu Instagram, Lavillenie reclamou: "Vice-campeão olímpico hoje à noite, com 5m98, e batido pelo Brasil, com 6,03. Eu me dediquei ao máximo e não tenho arrependimentos. Foi uma incrível disputa. Só estou decepcionado com a total falta de respeito do público. Este não é digno de um Estádio Olímpico". E não é mesmo. Trata-se de um comportamento ultrajante e cretino, típico de quem faz da comemoração do fracasso alheio o purgamento do fracasso próprio.

É importante ressaltar que não se tratam de casos isolados. Na ginástica artística foi muito, muito pior. Não contentes em comemorar a vitória de Diego Hypólito e Arthur Nor, os torcedores brasileiros fizeram troça dos norte-americanos Jacob Dalton e Sam Mikulak e do japonês Kenzo Shirai. Cada passo errado tomava a arquibanca de uma verdadeira catarse de satisfação, como se fosse um deleite ver a derrota de três grandes esportistas.

As Olimpíadas não são peladas futebolísticas de final de semana. Há uma filosofia do esporte, por assim dizer, que permeia a conduta não apenas de quem está na disputa, mas também de quem a assiste. Os atletas de fora são convidados, hóspedes que recebemos e a quem devemos o mínimo de respeito. Infelizmente, parte da torcida resolveu trocar o espírito olímpico pelo espírito de porco.


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