segunda-feira, 25 de julho de 2016

RACISMO: DISFARÇADAMENTE PRESENTE

Quem é preto como eu já tá ligado qual é
Justiça pode ser claramente um caminho para que as pessoas possam sonhar apropriadamente 
"Eu vou usar minha posição para dizer às pessoas que elas não estão sendo justas. Sempre que eu tive uma grande coisa que já tenha se espalhado pela internet, foi uma luta pela justiça. Justiça. E quando você diz justiça, isso não precisa uma guerra. Justiça poderia ser só abrir um caminho para as pessoas sonharem corretamente."

Hoje é o dia internacional dos direitos humanos. Em alusão a data estamos publicando esse texto que foi originalmente publicado no perfil do Facebook do Ian Black e depois no seu blog (já extinto) em dezembro de 2013, logo após a morte do Nelson Mandela. Recentemente o texto ganhou uma nova versão revisada no Medium e está republicada agora no Papo de Homem.

Há uns dois anos fui até a sede do IAB Brasil procurar mais informações sobre como minha empresa, uma agência digital, poderia se associar ao grupo. O elevador dava direto no escritório e fui recebido por um funcionário com a pergunta “você veio buscar alguma nota fiscal?”.

Na semana anterior a esse episódio fui a Maceió(AL), para ministrar um curso sobre mídia social, planejamento e criação de conteúdo. No dia seguinte aproveitei para dar uma volta na praia e resolvi parar na frente de um bar/quiosque meio chique. Em poucos segundos fui abordado por duas mocinhas me perguntando “você trabalha aqui?”.

Houve também aquele episódio em que recebi um e-mail de um potencial cliente, querendo conhecer a agência. Fui até lá acompanhado do Felipe, branco e gerente de mídia. Quando fomos recebidos pelo potencial cliente, ele estende a mão primeiro para o Felipe "Prazer, Ian, eu sou Fulano."

E isso porque ainda não mencionei as portas giratórias travadas, o carro da polícia desacelerando, os taxistas que ignoram meu sinal, os funcionários no aeroporto internacional de Guarulhos que insistem em iniciar uma conversa comigo em inglês ou as meninas mais alinhadas à direita que não me jogavam pro lado direito no Tinder (mas esse último merece um artigo único, heheheh).

Não foram raras as vezes, da infância à adolescência, em que eu desejei ser branco. Menos pelo preconceito direto das pessoas comigo (eu não percebia tanto tanto quanto meus amigos mais pretos que eu, filho de mãe branca e pai preto), mas pela simples ausência de protagonistas pretos na cultura popular: filmes, novelas, games, comerciais, quadrinhos, séries… No máximo um coadjuvante, uma escada para piadas, aquele chefe dos fuzileiros que sempre morre em missão, afinal, #BlackDudeDiesFirst.

In the past this perception was because black leads were kept away from any big-budget films outside of those that focused specifically on race or used it to make a point. Historically moviemakers were generally writing to white audiences, so it was natural (in their opinion) for whites to get more screen time. And if the writers throw in a Token Minority to give the cast more believable racial balance, who do you think is going to die first, them or the folks who have a bigger role in the script?

A tal da ~consciência negra~ (“Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and that is an act of political warfareAudre Lorde), foi aparecendo e se fortalecendo aos poucos, mas já na adultescência. Ganhou força quando conheci o Diego, preto meio confuso como eu, e juntos fomos trabalhar no Citibank. Lá, fomos observando (e sendo observados), questionando e entendendo algumas relações raciais que, como sempre no Brasil, estavam ali, estabelecidas de forma sutil. Foi aí que começamos, ainda que inconscientemente e inconsequentemente, a usar a nossa voz (de um jeito bem nosso, com muito deboche e ironia) para incomodar.

Não é exagero dizer que houve o momento em que saí do armário: foi quando eu deixei meu cabelo crescer de verdade, do jeito que a maioria das pessoas me conhecem hoje. Aos poucos fui reconquistando minha auto-estima através das minhas afirmações. Esse sentimento foi crescendo até o momento em que eu percebi que existem vantagens em ser preto (no meu caso em particular, que estou em uma posição social privilegiada): O.N.I.F.C. é também uma forma de se posicionar, escancarar e incomodar, seja em agências de publicidade, restaurantes ou aeroportos — pra citar três lugares em que pretos nunca são protagonistas.

"Eu poderia deixar esses assassinos de sonhos matarem minha auto-estima ou usar minha arrogância como um vapor para impulsionar os meus sonhos."

Segunda vez citando o Kanye, que é pra mim o grande sentimento.

A morte de alguém como Mandela me fez lembrar que não é fácil ser preto, e que muitas vezes o respeito que foi pedido (e não dado), precisa ser conquistado sem violência, mas com posicionamento, identidade e amor pelas diferenças.

(roubei e adaptei esse último parágrafo do Bispo: fiquei sabendo do Mandela a partir do post dele).

publicado em 10 de Dezembro de 2015, 17:29

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