quarta-feira, 16 de setembro de 2015

VELHICE: "...O IMPORTANTE É QUE EMOÇÕES EU VIVI."

SOMOS TÃO (IRREMEDIAVELMENTE) VELHOS

publicado em sociedade por Ana Vargas
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Esse artigo é para você que nasceu no fim dos anos sessenta e começo dos setenta em um país subdesenvolvido da América do Sul. É para você que cresceu ouvindo rock; que viu a queda daquele muro pela TV e achou que algo iria mudar, que se animou quando ouviu Nirvana no começo dos noventa e que hoje anda se sentindo mais ou menos, digamos assim... 'velho'. Esse texto é para que você não negue a idade que tem porque, afinal, vivemos muitas coisas boas até agora e, além do mais, não adianta nada, nada, ficarmos deprimidos. Já somos velhos, mas justamente por isso, merecemos respeito, como não?!      

A fotografia acima _ de um show do Pink Floyd_foi feita por Tim Duncam em 1973; naquele tempo éramos somente criancinhas inocentes (ou nem tanto rs).
Olhe para trás mas não com essa expressão que mostra nitidamente que você já está precisando de óculos, apenas, olhe para trás. Olhe e tente enxergar as nuances mais doces da sua infância... Você consegue? Foi bem ali naquele trecho já escondido pelo matagal do tempo desse longo caminho de sua vida que você nasceu, não? Talvez no fim dos anos 1960 quando tudo isso aqui, digo, o seu país, era uma viva promessa de sonhos frescos e puros. Havia ecos de festivais da canção, moças que casavam ou casavam, uns poucos rebeldes mas nós estávamos chegando e nada disso importava. Depois fomos crescendo envolvidos de forma ainda distanciada, pelos nascentes ecos da revolta setentista, mas éramos somente crianças perdidas em fantasias e gostávamos de brincar correndo pelas ruas ou subindo em árvores. Mas você só se reconhecerá nisso se nasceu no interior como eu ( mas mesmo que não seja esse seu caso, brincar nas ruas talvez não fosse tão perigoso assim nas cidades grandes de antigamente... Talvez).
O fato é que de qualquer forma, um dia a gente acha que correr nas ruas e subir em árvores não tem mais graça nenhuma e aí a gente começa a ouvir rock e a achar que ser criança é uma grande bobagem (mal sabemos o que nos aguarda rs). Mas no meu (nosso?) caso, isso aconteceu no começo da década de 1980. Você se lembra? Éramos tão jovenzinhos (pré-adolescentes como dizem hoje), tínhamos as bochechas rosadas e gorduchas ainda e detestávamos quando nossos pais conversavam com a gente como se ainda fôssemos crianças... Como os pais demoram a entender certas coisas... como demoram.
E então, ali pelos 15 ou 16 – 1984 ou 85, talvez – enquanto íamos nos sentindo tão estranhos dentro de nossos corpos em transformação, encontrávamos algum alívio ouvindo, é claro: rock. E a gente achava que era maravilhoso (e era mesmo) sermos assim, tão jovens - e frescos e puros - porque bem ali, naquele tempo da nossa chegada ao ‘mundo’ – estava ocorrendo lá no Rio aquela grandiosa ode ao... rock! O tal do ‘Rock in Rio’. Veja: era a primeira vez que o Brasil recebia de uma vez, bandas tão ‘tão’ como Yes, Queen ou Scorpions (na verdade eu não gostava tanto assim delas, mas de qualquer forma, nessa idade a gente se empolga fácil).
E nós tínhamos quinze ou dezesseis anos e sentíamos essa vibração e ela nos atingia com força. E, ainda que não morássemos – e no meu caso, nem pudéssemos ir lá - naquela cidade de novela das oito, nós sabíamos que aquilo era algo grandioso.
Mas embora pareça, isso não é uma tese saudosista sobre a adolescência e tudo que a envolve (digo, tudo, inclusive as dezenas de decepções semanais e a certeza de que o tempo está passando e que a vida não espera que a gente ‘entenda’ e sim que apenas ‘viva’).
Assim, aos sobressaltos e sabendo já, cansados de saber, aliás, que aquilo era um grande sonho que haveria de evaporar (afinal, tínhamos gente mais velha para nos lembrar disso o tempo todo, como não?! Como bem fazemos hoje com os pré-adolescentes que conhecemos) e que o Fred Mercury e o Cazuza eram gays (e: e daí?) e que daquelas tantas bandas dos anos 1980, digo, as brasileiras, só uma ou outra valia mesmo a pena ouvir porque a maioria não passava de pastiches de bandas estrangeiras... Talvez ali pelos quase vinte anos, final dos 80 e já com a ‘ficha’ (sim: ficha; para soar datado mesmo) caindo; já tendo que decidir isso e aquilo; já sabendo que a vida não era nenhuma ‘viagem psicodélica’ como pregavam os – no final dos 80 já tão antiquados e tristonhos – hippies; já tendo que tantas coisas...
Um muro que cai
Enquanto isso a realidade do fim daquela década já ia corroendo nossos calcanhares ainda tão macios; e a gente vendo pela tevê que o Brasil tentava se reerguer em meio às cinzas da ditadura que ficara nos setenta mas ainda resistia (resiste) na cara daquele fulano político que não conseguia esconder sua afeição por um tempo em que as coisas eram mais sistematizadas e facilmente controláveis. E nós nos tornando jovens e vendo que aquele muro foi derrubado mas que isso não mudou muita coisa; que houve impeachment daquele fulano mas ele voltaria anos adiante, como um zumbi bem alimentado sabe-se lá do quê (quilos de ambição devidamente corrompida, gosmenta e úmida?); que as novelonas continuariam alienando os menos incautos, que a nossa valorosa música popular brasileira – tão criativa e genial, ali nos 70 – seria influenciada por tanto ecletismo inútil que acabariam por torná-la insossa. A gente não poderia nunca imaginar que coisas como ‘Clube da Esquina’, por exemplo, se tornariam apenas lembranças... E só.
E então, envelhecemos e ficamos com a cara dos nossos professores de física e matemática, aqueles que quando tínhamos 16 nos olhavam com um misto de espanto e pena... Bem antes, nos anos 1990, já havíamos desistido de ouvir bons rocks que não tivessem aquela cara acomodada de roqueiro que vai em programas de tevê quando o Kurt apareceu descabelado e raivoso com o seu genial Nirvana. Pois é...mas tudo isso passou e como o ‘grunge’, ficou datado também, assim como os darks ficaram e os ‘metaleiros’ de 1985 e os hippies dos setenta com seus cabelos longos e depois, nós ainda fomos obrigados a assistir a isso: depois daquele ‘roquenrio’ o revolucionário, rebelde, transgressor rock’n roll foi sendo deglutido justamente pelo ‘sistema’ ao qual se opunha e bandas de rock se tornaram empresas bem sucedidas que já nascem tendo que dar lucro e com assessores e personal stylists ao redor (porque é muito importante que um roqueiro saiba combinar a calça com a camisa, como não?!).
Mas aí, já tínhamos bem mais de 20, quase 30 talvez ou até mais que isso... Talvez dez anos a mais porque já nos parecíamos com nossos pais e professores e já nos preocupávamos com rugas e já sabíamos que algumas das nossas canções juvenis, antes tão frescas e puras, já cheiravam a mofo...
E, agora, aos quarenta e poucos é a hora certa de dizer – sentindo muito mesmo – que somos irremediavelmente velhos. Que nenhum novo procedimento estético poderá deter a flacidez da nossa cara e que só nos resta agora cantar aquela canção – tão bobinha afinal, daquela banda tão oitentista – ao contrário, e a plenos pulmões gritarmos ‘somos tão velhos...tão velhos..!” E assumir isso, sem neuroses ou tentativas bizarras de apagarmos tudo o que vivemos e fomos e somos: envelhecer tem lá suas espantosas alegrias e que bom que mais velhos que nós, lá adiante, ainda estão aqueles que nos fizeram gostar de rock : Gilmour, Plant, Towsend e se eles estão resistindo ainda, sigamos também, envelhecendo, porque disso, ninguém escapa (saibam vocês, pré-adolescentes do século XXI rs).

anavargas



ANA VARGAS

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..


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