quarta-feira, 9 de setembro de 2015

BOATOS: CUIDADO, NEM TUDO QUE ESTÁ NA INTERNET É VERDADE!

NEM TUDO É VERDADE

publicado em sociedade por Gabriel Silva Farias
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A internet é traiçoeira mesmo com os menos incautos e os mais esclarecidos. Se a web abriga conhecimento, também é nascedouro de boatos e terreno fértil para meias-verdades.
Você provavelmente também se deparou com a notícia de que o professor norte-americano Carl Hart teria sido barrado pela segurança do hotel Tivoli Mofarrej no último dia 27, quando participaria do Seminário Internacional do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Uma vez publicado na web, o relato se disseminou com uma velocidade vertiginosa, provocando reações exaltadas. Sem meias-palavras, não houve quem se mantivesse indiferente: logo se multiplicariam as críticas ao hotel e as alegações de que o impedimento havia sido motivado por preconceito racial, sempre respaldadas pela cobertura jornalística de respeitáveis veículos de comunicação (tal como fizeram a Folha,Opera Mundi e BrasilPost).
A comovente solidariedade ao cientista – que, ostentando seus dreadlocks e um notável currículo na área de estudos do comportamento e efeitos do uso de drogas em seres humanos, é o primeiro professor titular afro-americano de ciências na Universidade de Columbia, cumpre ressaltar – apenas esbarra em um pequeno problema: tratava-se tão somente de um factoide.
Em uma sociedade onde o conhecimento é recurso estratégico, a desinformação deveria ser tratada como um problema de primeira ordem. As Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), procedimentos e instrumentos que mediam os processos informacionais e comunicativos na sociedade, liberaram os saberes de empoeiradas bibliotecas e volumosas enciclopédias para democratizá-lo no espaço virtual.
Por muito menos do que se pagaria para obter a coleção de exemplares da Britannica (ou quem sabe da popular Enciclopedia Barsa Universal), ferramentas digitais oferecem quantidades cada vez maiores de conteúdo, abrigando em suas entranhas incontáveis facetas. A fórmula é simples: se todos têm a palavra, sempre há algo a ser ouvido – receita da qual é feita a Wikipedia, exemplar endêmico dessa realidade. O risco é a eventual falta de compromisso com a verdade – proposital ou acidental – que pode consagrar falsas histórias e meias-verdades.
Nem só enciclopédias sofrem com as incertezas que se propagam no meio virtual. Para além de conceitos e teorias, pessoas e instituições também são vítimas da irresponsabilidade (ou da má fé) de alguns que, aproveitando-se da inocência alheia, propagam narrativas irresponsáveis ao seu bel prazer. De acordo com José Antônio Milagre, advogado e perito em informática, “o uso de redes sociais de forma irresponsável para prejudicar a reputação e a honra de pessoas e a imagem de empresas tem aumentado constantemente no Brasil”.
Valendo-se de uma linguagem acessível e forte apelo emocional, estas histórias viralizam na web e, em casos extremos, incensam crimes bárbaros, como o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, 33, morta após ser confundida com o retrato falado de uma sequestradora que teria sido divulgado em uma página do Facebook.
Será possível criar meios para coibir a emergência de factoides desta natureza? A resposta é incerta. Fato é que crimes contra a honra, como injúria, calúnia e difamação já estão tipificados no código penal brasileiro, de modo que, dentro ou fora da internet, há mecanismos legais para atuar como a salvaguarda de indivíduos e organizações.
A grande questão gira em torno do fato de que, enquanto um ambiente marcado por um intenso fluxo de informações, boatos podem surgir de forma espontânea, imputando inadvertidamente verdadeiras condenações morais a pessoas e empresas que não cometeram crime algum.
A importância da internet na sociedade contemporânea é, de fato, inquestionável. Dos lares do Nepal aos bares do Gabão, a web encurtou distâncias e fez do grande planeta água uma pequena aldeia global. Seu conteúdo, porém, é às vezes duvidoso: conhecimento de alto valor disputa espaço com informações imprecisas, boatos ruidosos e mentiras monumentais, que se parecem com verdades quando repetidas à exaustão. Para não ser vítima da próxima farsa, todo cuidado é pouco.

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GABRIEL SILVA FARIAS
Gabriel Farias, 21, é estudante de Ciências & Humanidades na Universidade Federal do ABC. Escreve sobre cultura, tecnologia e sociedade..

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