terça-feira, 17 de março de 2015

FUNK: PARA O BEM OU PARA O MAL, ELE ESTÁ AÍ

Funk carioca: Rio 50 graus

Assim como foi com o samba, 100 anos atrás, o funk carioca luta para sair da marginalidade e se firmar como voz de toda uma geração de jovens
Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL
Por: Maurício Barros de Castro 

Dançarinos bem-vestidos e maquiados participam da gravação de um clipe na Vila Mimosa. Fora do gueto, o funk glamourizou-se e foi adotado por celebridades brasileiras – de artistas de TV a jogadores de futebol.
A batida nas alturas que ecoa das imensas e potentes caixas de som estremece os corpos suados. Mesmo na madrugada, é intenso o calor do verão carioca. O ambiente é o de um caldeirão. Com shorts sumários e blusas decotadas, as mulheres rebolam até quase alcançar o chão. Casais dançam como se fossem um só corpo, entregues à catarse sonora. O apelo sexual é um dos ingredientes do transe coletivo – os versos transgressores beiram a pornografia. O DJ coloca então um sucesso antigo para tocar e a turma vai à loucura: “Ah, eu tô maluco!”
Esse refrão clássico revela bem a maneira como o funk se impôs no Rio de Janeiro e, depois, em todo o país. A frase foi criada pelo camelô Jorge Silva da Rocha. O sujeito curtia o baile em Madureira, na zona norte da cidade, quando ficou enlouquecido com as mulheres que dançavam diante dele. Jorge da Rocha apostou 50 reais com os amigos que subiria no palco e falaria qualquer coisa – ou então voltaria para casa de cueca. Dito e feito, ele subiu e soltou, de improviso: “Ah, eu tô maluco!” Simples, rápido, direto. Pegou na veia. A multidão entrou em êxtase.

Não foram só 50 reais a mais no bolso: o camelô também viu seu bordão ser gravado pelo Movimento Funk Club – que se apresentava naquela noite – e remixado na música Montagem do Desesperado. O sucesso foi tão grande que o grito de guerra de Jorge tomou conta do Brasil, figurando depois em peças publicitárias, às mesas dos bares, nos protestos de rua contra o aumento nos preços das passagens, nos estádios de futebol.

A história de Jorge da Rocha já faz parte do imaginário do funk, um momento simbólico da trajetória do movimento. Penso nisso enquanto observo, do alto do Morro da Providência, o Rio de Janeiro lá embaixo, em meio à penumbra do baile. Poucas luzes, dispostas sob a lona que cobre a quadra, despejam suas cores intermitentes e permitem vislumbrar o fluxo de gente. “Novinhas”, “popozudas”, “tchutchucas” e “bondes” de dançarinos fazem a festa fervilhar. De repente, um alvoroço: flashes de celulares e de câmeras fotográficas destacam uma jovem de cabelo pintado de loiro. É a MC Sabrina, uma diva do funk.

No Providência, Sabrina está em casa. A MC (mestre de cerimônia) nasceu e foi criada nos becos e vielas da mais antiga favela do Rio de Janeiro, na zona portuária. (A própria origem do termo nasceu aqui: em 1897, se instalaram no morro os soldados que chegavam de Canudos, após a guerra épica contra Antônio Conselheiro e seus seguidores. Os militares perceberam que naquelas encostas crescia uma planta – a favela – muito parecida com a que existia no sertão da Bahia.) A Providência é hoje uma das poucas comunidades do Rio de Janeiro ocupadas por Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) que têm permissão para realizar bailes funk. Nas muitas outras comunidades em que o movimento nasceu e se sedimentou, as festas estão proibidas, sob o argumento de que incitam a violência. “No Centro da cidade, só aqui tem baile”, conta o DJ Jonhatan Livramento, de 20 anos.

No fogo cruzado entre o preconceito da sociedade, as UPPs e o tráfico de drogas, MCs, DJs e dançarinos do “passinho” resistem e mantêm o funk como uma das mais importantes expressões contemporâneas do Rio. “O funk assumiu a posição do samba como símbolo da música carioca. Até que as UPPs dizimaram os bailes”, conta Julio Ludemir, escritor e produtor cultural, enquanto bebemos um café numa livraria da cidade.
NG - Baile Funk
PISTA QUENTE - Caras, bocas, ginga, desejo: carregados de apelo sexual, os bailes funk agora estão proibidos em muitos bairros, rotulados pela polícia como uma extensão da criminalidade do narcotráfico - Foto: Vincent Rosenblatt

De fato, é difícil escapar da comparação com o samba. Pois, assim como o funk, o ritmo que anima os Carnavais e é reconhecido como a música nacional do Brasil já foi perseguido e marginalizado. No início do século passado, para realizar as rodas de samba nas casas das “tias”, era preciso pedir permissão à policia – assim como acontece hoje com as solicitações para promover os bailes.
O samba só deixou de ser perseguido a partir dos anos 1930. “Com o tempo, eu penso que o funk também vai ser aceito”, acredita Ludemir.
Figura antenada com o que acontece na periferia carioca, Ludemir foi um dos idealizadores do evento chamado Batalha do Passinho, uma disputa entre os melhores praticantes dessa modalidade de dança funk. O passinho se tornou viral em 2008, quando um vídeo postado por um dos dançarinos, o Beiçola, ganhou mais de 5 milhões de visualizações. O clima era perfeito para a propagação do novo fenômeno. O Brasil vivia a emergência das redes sociais, os jovens das favelas e dos subúrbios lotavam as lan houses e a inclusão digital estava na pauta do governo brasileiro. “O sucesso do vídeo do Beiçola rompeu os limites das comunidades”, conta o produtor.
O próprio passinho já vive transformações radicais, a ponto de Ludemir sentenciar: “O passinho passou”. O estilo é mais um retrato de uma indústria tão precária quanto dinâmica, que elege novos ídolos num piscar de olhos, muitos deles consagrados por um ou dois sucessos, no máximo. Ludemir acredita que os bailes estão retornando às suas origens, voltando a ser coletivos, deixando pouco espaço para a virtuose individual dos dançarinos – no início, quando aconteciam nos clubes, eram palco de grandes coreografias realizadas por grupos de jovens.
A história dos bailes também é movediça e não começa nas favelas, lugar de onde veio a maioria de seus artistas. Os motivos que levaram as festas a deixar os clubes do “asfalto” e a subir o morro, sob a tutela dos traficantes, remontam ao início dos anos 1980. Na época, as pistas atraíam milhares de jovens, embalados pelo “batidão” que já se ouvia pelo Rio. Os principais bailes aconteciam em clubes da zona norte, como Cassino Bangu, Mackenzie do Méier, CCIP de Pilares, mas havia os da zona sul, entre eles o Mourisco, em Botafogo. Espaços surgiram nas cidades vizinhas, como o Canto do Rio, em Niterói, e o Clube Mauá, em São Gonçalo, em que despontaram os MCs Claudinho e Bochecha – a dupla encantou nomes consagrados da MPB, como Lulu Santos, Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto.
Os problemas começaram a surgir com as brigas épicas que aconteciam na saída dos bailes. “Era uma questão de mobilidade. Imagine cerca de 5 mil jovens saindo de um mesmo lugar, com a energia própria da idade, sem terem como voltar para casa porque não existia, nem existe ainda, transporte público de madrugada. As brigas eram consequência dessa situação”, argumenta Ludemir. Outro problema era o estabelecimento de rivalidades que se reproduziam dentro dos bailes. Foi assim que se formaram os “corredores”, como eram chamados os espaços nos clubes onde os jovens se encontravam para se enfrentar.

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