terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

REDES SOCIAIS: PENSAMENTO CRÍTICO É OPINIÃO?

A ERA DA MEDIOCRIDADE

publicado em recortes por Ahas
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 Seja bem-vindo, a estrela aqui é você.
Qual a sua parcela de mediocridade? Pode parecer um contrassenso falar do termo mediocridade em um período em que muitos autores têm chamado de a era do conhecimento, com abundante tecnologia, acessibilidade e a vasta quantidade de informação. Como explicar, então, o fato dessa fartura intelectual disponível gere resultados tão pobres em conteúdo? Por que, mesmo com todas as ferramentas de conhecimento e comunicação, mais e mais as pessoas não conseguem se entender e os conflitos e dramas (tanto pessoais quanto sociais) aumentam de forma gritante? Nunca tivemos uma sociedade tão doente do ponto de vista psicológico. O termo medíocre, antes de ser pejorativo, deriva da “média”, é aquilo que não é bom ou mal, não fracassa, mas não tem sucesso. Nos dicionários você encontrará definições mais severas, que diz que o medíocre não tem qualidades ou méritos. Aqui vamos encontrar a mediocridade dentro de nós.
Tornar-se uma pessoa inteira. Segundo Jung, esse processo é o que ele chama de individualização. Mas será que atualmente, em que a individualidade é um valor presente e intrínseco às pessoas, a concepção de Jung se aplica à realidade? Afinal, o que é ser inteiro? O que é ser Pessoa? Em um conto da Clarice Lispector (que infelizmente não lembro o nome), ela diz que “Pessoa” deveria ser um elogio, e realmente, é muita responsabilidade Ser.
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Na descoberta de si, o outro é fundamental. Porém, mais do que nunca, com a popularidade das redes sociais, podemos ver que muitas vezes há uma dificuldade em lidar com esse desconhecido que é tão diverso e ao mesmo tempo tão igual a nós. Também conhecido como semelhante, o outro muitas vezes é um completo estranho. Jung afirma que a chave da individualização resulta da interação do indivíduo com o coletivo. Aí está a fonte de todos os nossos problemas e, principalmente, dos conflitos das sociedades.
Primeiro, entenda que falaremos aqui de igualdade. Então, por favor, deixe ao lado na mesa suas crenças, fé, conceitos e definições sobre as coisas e dialogue com este texto. Sim, interaja, não seja um simples leitor, a ideia aqui é uma conversa e ela deve ser de igual para igual para fazer efeito.
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A comunicação é o grande dom da humanidade, referência máxima a isso é a notória abertura presente no primeiro capítulo do Evangelho de João que diz “No princípio era o verbo”, uma frase simples que diz tudo e torna legítima a restante da narrativa (Importante frisar que a bíblia tem um aspecto psicológico importantíssimo na sociedade e é por esta ótica que faço essa afirmação). Graças à linguagem nossa espécie é única na natureza, responsável por grandes feitos e características. Agora, justamente quando ultrapassamos importantes barreiras da comunicação através da tecnologia, novas questões aparecem, as diferenças e problemas se multiplicam. Apesar do cerne de nossa questão ser a igualdade, não pense que a existência da diferença seja algo negativo, muito pelo contrário, ela é necessária à vida, mas a forma como estamos lidando com isso é alarmante. Entre esses pontos, há algo vital em qualquer relação que está sendo comprometido: o entendimento.
Faça um exercício rápido para ter uma ideia concreta deste fato. Entre no Facebook e veja algum tópico de notícia com tema polêmico como religião, sexualidade, política, direitos humanos, pena de morte, cotas e tantos outros. Alguns minutos ali é o suficiente para chegar a perder a fé na humanidade tamanha são as opiniões que fogem de todos os princípios éticos, lógicos e até humanos.
O que vemos nos comentários dessas redes não há definição ainda firmada no extenso léxico de significados. Em termos filosóficos, existe uma diferença entre discussão e disputa. O que acontece hoje nas redes sociais não são discussões, talvez nem sejam disputas, criamos um novo método de expor nossas ideias na contemporaneidade, mas o mais próximo é a definição de disputa, que é uma batalha de argumentos que exigem demonstrações (essa parte é defasada na atualidade, as pessoas não conseguem argumentar e sustentar a própria opinião) a fim de que uma ideia prevaleça. Já a discussão tem em vista um processo de lapidação das opiniões, em que a finalidade é alcançar um equilíbrio entre as partes, ou seja, mais raro ainda. A importância disso não deve ser desprezada, pois do ponto de vista linguístico, ao constatar a forma como as opiniões e crenças são formadas, estamos “involuindo”, pois nossa capacidade de comunicar está atada ao desenvolvimento da espécie. Sem nos esquecer que as opiniões e crenças funcionam como um útero para os preconceitos e discriminações.
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Todo o contexto é importante para avaliar o momento que estamos atravessando (vamos exercer a episteme – que falaremos mais à frente), que por sinal é único e decisivo. Imagine a humanidade como se ela fosse uma pessoa. Ao avaliar o tempo que estamos nesse globo azul, apenas 200 mil anos, sendo que a forma de “homem sábio” (Homo Sapiens) apenas a 50 mil, vamos perceber que nesta coexistência ela sai agora da adolescência e entra para a maturidade. Este é o motivo deste momento na história ser de grande importância. Agora vamos colocar a “pessoa” humanidade num divã: ela passou por uma adolescência rebelde, já escravizou uma raça, queimou pessoas por acreditar serem bruxas e realizou atrocidades como holocausto e Hiroshima. Ao invés de aprender com essas escolhas, elas causaram profundos traumas. Freud diz coisas relevantes sobre isso, de como o impacto desses fatos marcaram o subconsciente coletivo. Segundo o doutor, a psique social foi fortemente comprometida com a 1º guerra mundial, que trouxe a destruição da identidade do outro, mostrou os níveis de crueldade que o homem pode chegar ou nas palavras dele “falência na mediação do outro” o que ele chamou de “narcisismo das pequenas diferenças sociais”, em que transforma o diferente em inimigo – bastante atual esse conceito freudiano, não?
As diferenças hoje passam por uma intensificação pelos meios propagadores de opiniões, marcados pela forte presença da internet e das redes sociais. A participação individual está mais ativa tendo em vista estes meios e essa conectividade toda deveria vir para nos auxiliar, porém muitas vezes não cumprem esse objetivo. Levanta-se assim uma questão importante que exerce papel fundamental em nossas vidas: a nossa opinião, ou melhor, a nossa mediocridade.
Os homens são movidos e perturbados não pelas coisas, mas pelas opiniões que eles têm delas, são as palavras do filósofo grego Epicteto. Aliás, a Opinião é massacrada no campo filosófico, ela não é bem vista justamente por sua construção. Platão já nos indicava sua crítica à doxa, palavra grega que designa opinião popular, que ele classifica como “mundo das sombras” por ser imperfeito e ser influenciado pelos sentidos e não pelo conhecimento, em oposição à episteme (que estamos tentando empregar neste texto) que seria o conhecimento real, concebido através de uma ampla visão que analisa todo o contexto isentando uma avaliação pessoal.
E chegamos exatamente no ponto ao tentar isentar a visão pessoal, pois ela é cheia de vícios que impedem alcançar o tal entendimento mútuo. É o entendimento que transforma as diferenças em pontos de vistas, com coerência dentro da complexidade social e coletiva. Pois o mundo como está configurado não corresponde mais à realidade que estamos. Nossas estruturas e bases estão alinhadas a uma ideologia de consumo que vai totalmente contra o imperativo da sustentabilidade em tudo. Não o termo banalizado de sustentabilidade que o marketing usa de estratégia, mas sim seu conceito puro, pois hoje não temos mais condições de pensar individualmente, a sociedade é para o homem o que o mar é para o peixe; não à toa temas sociais estão tão em voga e geram intensos conflitos de ideias. O próprio capitalismo, amado e odiado por muitos, corresponde a um cenário que não é mais o nosso, o mercado responde a isso sendo mais flexível, com tendências ao compartilhamento e serviços colaborativos, cabe lembrar que algumas das marcas mais valiosas do mundo, o Google, por exemplo, não cobra seus serviços. Nossas necessidades naturais como a falta de estrutura básica como água e energia mostra a fragilidade de uma sociedade carcomida por um defasado senso de opinião que necessita de uma postura rápida, um salto.
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Thomas Hobbes tem uma visão interessante no que ele chama de guerra de todos contra todos. O fato de sermos iguais apresenta um grande paradoxo, pois sempre desejamos mais uns que os outros. A concorrência é filha da igualdade. O autor de Leviatã acredita que a falta de um poder estatal se converte nesta guerra, afirmando categoricamente que “os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito”. Esse poder deveria ser o conhecimento.
Entende por que somos a estrela da era da mediocridade? O logos, palavra grega que define aquilo que se conhece e a possibilidade de expressar o conhecimento ao outro, está sendo transformado em doxa, que como dissemos mais acima é a simples opinião que nos dias de hoje está com tão pouca sustentação. Estamos enfraquecendo a palavra em nome das opiniões, não usamos o vocabulário com responsabilidade dos seus sentidos, simplesmente não o buscamos, e atrofiando nossa linguagem, nossa comunicação, estamos regredindo e comprometendo nossa maturidade. Não podemos confundir pensamento crítico com dar nossa opinião.
Isso pode fazer você perceber, por exemplo, que em um dia que ao sair do trabalho em estado de estafa, querendo chegar em casa pra cair na sua cama, mas vias da sua cidade estão bloqueadas por uma manifestação social, você não tenha raiva disso. Apesar de toda sua razão, você entende que seus motivos, por mais nobres que sejam, talvez sejam egoístas demais. E egoísmo não é motivo de vergonha, exercê-lo talvez seja. O filósofo Parmênides diz que nossa opinião “é a ideia confusa acerca da realidade e que se opõe ao conhecimento verdadeiro”.
Somos as células nesse organismo chamado vida. Não seja um câncer. A nossa opinião é nossa mediocridade, pois ela nos limita de entender e ampliar a percepção. De qualquer forma essa é minha opinião, você concorda? Aceite a discussão. ;)

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