sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

COMPORTAMENTO: ESTAMOS AGINDO COMO ROBÔS

CONSEGUIMOS OLHAR AO REDOR?

publicado em recortes por Leandro Côrte

A cada dia que passa, temos mais problemas de saúde: depressão, complexos e síndromes. Gritamos uns com os outros. Perdemos a paciência. Violência em toda a parte. Casais vivendo sós. Amizades se desfazendo. Traição passou a ser mais comum do que chuva na Cantareira. Mas, por que isso está acontecendo?

 Por Stefan Klauke
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Vários filmes mostram a aniquilação dos seres humanos das mais diversas formas: catástrofes naturais, meteoros, monstros gigantes que saem dos mares, alienígenas e, até mesmo, robôs. Entretanto, a Pixar não poderia ser mais exata em retratar o que mais nos aproxima do fim ou o que nos distanciaria de um novo começo: em WALL-E, a animação pode ser incrível, mas a realidade é bem diferente.
Você já parou pra pensar quantas telas estão a nossa volta? Phablets, televisões, tablets, celulares e computadores são quase requisitos para você ser uma pessoa inserida na sociedade atualmente. Não importa muito o lugar onde você vá: se tiver algumas pessoas no seu caminho, provavelmente você vai achar uma tela. Entrou no transporte público? Grande parte das pessoas está olhando para baixo, em direção ao umbigo, para a sua própria tela.
O Facebook é o mural da nossa vida e faz questão de deixar isso claro. O Whatsapp é a nossa forma de comunicação mais comum e a maneira de dizer para os mais próximos que existimos. O Instagram serve pra registrar momentos que, muitas vezes, nem vemos passar. O Twitter é a nova voz da consciência: qualquer pensamento disperso vira um tweet. Temos um turbilhão de informações disponíveis, mas temos menos tempo para debater sobre elas - qual o problema? podemos comentar. Estamos cada vez mais sociais, apesar de estarmos menos sociáveis. Esses são só alguns exemplos.
O que antes tinha uma extrema importância, coisas dignas da filosofia e da literatura, estão se transformando em meros eventos banais. Amor? Se, em um mar de gente, aconteceu um “Match”, poderemos conversar, senão é só arrastar para o outro lado e nunca mais nos veremos. Sexo? Se, em uma vitrine de corpos, tiver algo interessante, até pode acontecer. Liberdade? Todos sabemos que é só desligar as telas, mas não temos coragem.
Entretanto, temos várias justificativas para continuar usando todas essas bugigangas e a principal delas é: necessidade. Será? Como faziam os nossos avós? Como fazem as tribos indígenas? Como fazem os esquimós? E quem não tem acesso, faz o quê? Nossa, não tem nada a ver, é outra vida! Vejamos então: Como você fazia sem ficar grudado nas suas telas? Elas já existiam, você usava elas, mas não vivia pra elas. Lembra? Você ligava para os seus amigos, saia para se divertir, e, mesmo assim, conhecia novas pessoas. Parece que já foi o tempo em que “saudades” era um sentimento que poderia ser citado, porque parece que, atualmente, é necessário estar disponível para todos a todo momento.

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Mas, será se somos nós? Você já parou pra pensar que você não está falando com ninguém, mas a sua tela é que está falando com outra tela? É aí que entramos em WALL-E e a população daqueles que não olham para o próximo, se não for por uma tela. Será se entramos em uma progressão de conexões e não conseguimos mais nos desconectar? Como será a nossa vida sem todas as nossas telas? Será se a pessoa que está ao seu lado não é o amor da sua vida?
Não nos tratamos mais como pessoas, porque nos vemos como telas, que podem ser trocadas, ou aplicativos, que podem ser desinstalados. Talvez seja por isso que estamos ficando violentos, ansiosos e indiferentes. Estamos matando os nossos sentidos aos poucos, enquanto trocamos tudo isso por circuitos. Os futuros robôs não vão tomar o lugar dos seres humanos, porque os futuros robôs somos nós. Como poderemos destruir o inimigo, se nós somos o inimigo?
Enquanto o mundo gira, parecemos ignorar o seu movimento, mas isso não o impede de girar. O tempo passa e, com ele, passam coisas boas e ruins, mas só poderemos julgar se estivermos presentes. Por que não começar agora? Aceite a experiência e fique um tempo sem suas telas: você vai perceber que tem coisas que não podem ser substituídas, como um abraço ou uma conversa pessoal com o seu melhor amigo.
Não precisa abandonar as telas pra sempre, é só ter a consciência que aquilo não é tudo. As telas são apenas acessórios e somos nós que devemos controlar. Não deixe que aparentes facilidades desviem você da sua vida; não deixe que um catálogo de fotos diga quem você deve amar ou não; não deixe de ouvir a sua própria voz; e não deixe de sentir o que está a sua volta.
Isso não é uma narrativa catástrofe. Ninguém disse que o mundo acabou ou que estamos condenados. Primeiramente, nós passamos todo esse tempo conversando. Afinal, você me ajudou a escrever esse texto respondendo as perguntas pelo caminho. Para terminar, não faz mal quebrar uma das regras básicas da redação, de nunca concluir com uma pergunta, e para deixar claro que todo esse tempo estávamos conversando, só reflita sobre esta última: conseguimos olhar ao redor?


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