terça-feira, 24 de junho de 2014

FUTEBOL E NARCOTRÁFICO: TUDO A VER

GOL CONTRA


Oito modos de futebol e crime organizado se misturarem na América Latina

Pela segunda vez na história do Mundial de Futebol, o Brasil é o país anfitrião do maior evento esportivo do planeta. Talvez a principal diferença entre o torneio de 1950 e o de 2014 esteja no alcance e na instantaneidade com que bilhões de pessoas acompanham os jogos, resultados e fatos relacionados à Copa.
Ao mesmo tempo em que o futebol e as Copas ganharam cada vez mais adeptos e torcedores, maior passou a ser a cobertura da mídia do evento que acontece a cada quatro anos. No caso do Brasil de 2014, são cerca de 20 mil jornalistas de todos os cantos do mundo relatando, fotografando e mostrando o que acontece no país.
A Samuel, agora em sua versão eletrônica, também dedica o período da Copa a trazer o que a mídia independente do Brasil e do mundo vem registrando sobre o antes, o durante e o depois do evento, seus participantes e espectadores. Textos e vídeos postados diariamente darão a medida dos diferentes olhares e observações que irão marcar o cotidiano dos 32 países representados no evento.

Equipe do América de Cáli em 2012: esforço para romper com influências criminosas


O futebol é há muito tempo uma força unificadora na América Latina. Mas o “jogo bonito” tem atraído ao longo dos anos mais do que apenas torcedores. Seja pelo desejo de prestígio, lavar dinheiro ilícito ou simplesmente ganhar dinheiro, o futebol profissional também tem atraído alguns dos mais infames reis do narcotráfico na região, num processo que corrompe jogadores, técnicos e dirigentes.

Abaixo está uma lista com 8 exemplos do que acontece quando o mundo do esporte se encontra com o submundo.

1. Narcotraficantes que se tornam proprietários
Em 1983, o então ministro colombiano da Justiça, Rodrigo Lara Bonilla, denunciou que seis equipes do futebol profissional do país estavam “nas mãos de indivíduos ligados ao tráfico de drogas”. Entre os nomes listados por Lara estava o América, uma equipe profissional da cidade de Cáli, sudoeste da Colômbia, de propriedade dos irmãos Miguel e Gilberto Rodríguez Orejuela, os chefões do Cartel de Cáli. Depois que o Cartel de Cáli foi desmantelado no final dos anos 1990, há evidências sugerindo que o América continuou a receber dinheiro das redes do tráfico de drogas. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos adicionou a equipe à sua “Lista dos Chefões do Tráfico” em 1999 por causa de sua contínua ligação com os irmãos Rodríguez Orejuela, congelando assim todos os bens do time nos Estados Unidos. Apesar disso, acredita-se que o América de Cáli manteve seus repulsivos vínculos por algum tempo, e em 2007 até foi vinculado a organizações paramilitares.

O América de Cáli finalmente foi retirado da “Lista dos Chefões” em abril de 2013, quando o Tesouro citou os “esforços enormes feitos nos últimos anos, tanto pela equipe como pelo governo colombiano, para romper completamente com influências criminosas que haviam ofuscado o time”.

2. Proprietários de times que se tornam narcotraficantes
Em janeiro de 2014, as autoridades mexicanas prenderam Tirso Martínez Sánchez, apelidado de "El Futbolista" (jogador de futebol). Durante sua carreira no crime, Martínez foi proprietário do clube profissional Queretaro e suspeita-se que controlava dois outros, o Irapuato e o Celaya, por meio de terceiros em vários momentos.
Ao mesmo tempo, ele mantinha contato próximo com alguns dos maiores nomes dos cartéis do México, incluindo Amado Carrilo Fuentes, conhecido como “Senhor dos Céus”, do Cartel de Juárez, e Arturo Beltrán Leyva, da Organização Beltrán Leyva. Além de ser o chefe de uma grande organização do narcotráfico procurado por enviar mais de 70 toneladas de cocaína para fora da Colômbia entre 2000 e 2003, acredita-se que Sánchez tenha se beneficiado de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a transferência de jogadores em parceria com outros ricos empresários, por meio de uma empresa conhecida como Promotora Internacional Fut Soccer.

3. Jogos da reconciliação
Para algumas redes ilegais no hemisfério sul, o envolvimento no mais popular esporte da região se dá menos pela oportunidade de negócios e mais pela publicidade. Esse é o caso do maior grupo guerrilheiro da Colômbia, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que atualmente estão negociando um acordo de paz com as autoridades colombianas em Havana, Cuba.

No final de 2013, a equipe de negociação dos rebeldes ganhou as manchetes ao propor uma série de Jogos pela Paz em Cuba e na Colômbia, com o objetivo de obter exposição internacional para as conversações.
A proposta inicial de realizar os jogos veio de Carlos Valderrama, um craque do futebol colombiano, que sugeriu em uma entrevista ao jornal El Tiempo que o jogo poderia ajudar a promover a reconciliação no país. As Farc pegaram a ideia e divulgaram um comunicado à imprensa em Havana no qual o principal líder rebelde nas negociações, Iván Márquez, dizia que a guerrilha estava “preparada fisicamente, atleticamente” para as partidas.
O grupo também convidou outras estrelas do futebol, como o esquerdista jogador argentino Diego Maradona. Um porta-voz do presidente Juan Manuel Santos disse que o governo estava disposto a coordenar os jogos, mas ainda não anunciou o momento ou data para eles.

Estátua de Valderrama em Santa Marta: craque colombiano propôs jogos de reconciliação


4. Traficantes e benfeitores


As Farc não são as únicas que conhecem o potencial do futebol para fazer boas ações de relações públicas. No México, o chefão do Estado de  Michoacán, Wenceslao Álvarez, conhecido como “El Wencho”, pode ter comprado a equipe de segunda divisão no, os Mapaches, de Nueva Italia, pela mesma razão.

Antes de ser preso em 2008, Álvarez era uma espécie de camaleão em sua carreira criminosa. Membro ativo do Cartel do Golfo antes de trabalhar para a Família Michoacana, também se acredita que tivesse estreitas ligações com os Zetas, de acordo com o Tesouro dos Estados Unidos. Quando a polícia invadiu os escritórios dos Mapaches, prendeu vários integrantes do time, os quais se beneficiavam grandemente das atividades ilegais de seu chefe. Uma equipe de investigações de Los Angeles descobriu que todos os jogadores tinham salários altos demais, dirigiam veículos de luxo e recebiam novos uniformes a cada jogo. Os promotores incluíram a equipe em uma lista de frentes legais de renda ilícita.

Para alguém como Álvarez, um traficante que comandava um império das drogas que ia dos campos de coca na Colômbia às ruas de Atlanta, o time era pequeno demais para lavar quantias significativas de dinheiro. A compra da equipe parece ter sido mais para conquistar apoio em sua base territorial do que uma iniciativa de negócios.

De acordo com o historiador mexicano de esportes Carlos Calderón, ele conseguiu o efeito pretendido: “Esse cara era visto como um benfeitor na região onde a Família Michoacana operava porque formava times e criava escolas de futebol para as crianças, dando-lhes camisas e sapatos, tudo com o dinheiro das drogas”, disse Calderón à revista de esportes “El Gráfico”.

Mapaches: o time mexicano de segunda divisão era pequeno demais para lavar quantias significativas de dinheiro


 
5. Jogadores como “mulas”

Em 2003, por exemplo, um ex-zagueiro do clube mexicano Necaxa, Carlos Álvarez Maya, foi preso no aeroporto internacional do México depois que as autoridades descobriram mais de 1 milhão de dólares em dinheiro em sua bagagem. Quando lhe perguntaram sobre a quantia, Álvarez deu a resposta-padrão usada por quase todas as “mulas” de dinheiro e drogas, que temem retaliação se delatarem: ele disse à polícia que um “estranho” se aproximou dele no estacionamento do aeroporto e lhe ofereceu dinheiro para transportar a mala.

6. Jogadores se tornam alvos

Há muitos exemplos de jogadores de futebol embrenhados no mundo violento das drogas. Um dos mais dramáticos envolveu o paraguaio Salvador Cabañas, ex-atacante do clube América, do México, que levou um tiro à queima roupa na cabeça em 2010. Surpreendentemente, ele sobreviveu, embora os médicos não tenham conseguido remover a bala de seu cérebro.

Depois do incidente, fontes na polícia disseram suspeitar que o jogador possa ter sido alvo do atentado por causa de dívidas por drogas não pagas. O suposto atirador, depois identificado como José Jorge Balderas, conhecido como “JJ”, certamente tinha conexões criminosas impressionantes. JJ, que foi preso em 2011, era ligado a Édgar Valdez Villarea, de cognome “La Barbie”, homem-chave da Organização Beltrán Leyva. Em seu depoimento, La Barbie confirmou o papel de JJ no ataque ao jogador. Ele disse que JJ e Cabañas eram amigos, mas no dia do ataque o jogador “estava de mau humor e eles começaram a brigar”.

7. Autoridades e agentes como traficantes

O dinheiro fácil do comércio de drogas seduz não só os jogadores, mas também os dirigentes do futebol profissional. Na Operação Ciclone, de fevereiro de 2009, a polícia espanhola prendeu 11 pessoas por supostamente usarem suas ligações com o esporte para encobrir uma rede internacional de tráfico de drogas que se estendia da Argentina até a Europa.

Os nomes incluíam um ex-jogador profissional e outro em atividade, bem como vários agentes de recrutamento. Autoridades disseram que o cabeça da rede era Zoran Matijevic, que o jornal espanhol El País identificou como empresário de jogadores licenciado pela Fifa. Ele e seu sócio, Pedrag Stankovic, ex-jogador do Hércules de Alicante CF, foram acusados de financiar diretamente a compra de pelo menos 600 quilos de cocaína como parte de um esquema de contrabando.

A Fifa agiu rapidamente para evitar danos à sua imagem. Depois da prisão de Matijevic, a federação informou que não licencia empresários de jogadores desde 2001 e que essa prática só é realizada pelas associações nacionais.

8. Pablo Escobar e o Atlético Nacional

Pablo Escobar era um grande fã de futebol e principal contribuinte de um dos mais importantes times profissionais da cidade de Medellín, o Atlético Nacional. Isso era tanto uma decisão de negócios como uma demonstração de apoio a seu time favorito. Vendas de ingressos, salários de jogadores e lucrativos contratos de transmissão de partidas ofereciam, todos, um meio fácil para seu império criminoso lavar uma parte de seus enormes lucros. Como revelou o ex-treinador Francisco Maturana no documentário “Los dos Escobar”, de 2010, esse afluxo de dinheiro elevou consideravelmente o perfil do time. De acordo com Maturana, “a chegada do ‘dinheiro quente’ ajudou a pagar bons jogadores aqui e trazer estrangeiros, e com isso o futebol melhorou”.

Com a ajuda de sua escalação estrelar naquela época, em 1989 o Atlético Nacional alcançou o que nenhuma outra equipe colombiana conseguira antes: conquistou a Taça Libertadores da América, o título de maior prestígio nos torneios de clubes na América do Sul.

Documentário “Los dos Escobar”: chefe do narcotráfico colombiano era financiador do Atlético Nacional


Quando foi morto a tiros em um telhado de Medelín em 1993, o chefão do narcotráfico foi enterrado com a bandeira do time. Com a morte de Escobar, porém, o Atlético Nacional perdeu um de seus principais financiadores, e a falta de financiamento do Cartel de Medelín contribuiu para uma onda de deserções de jogadores de destaque no time.

Tradução Maria Teresa Souza

Texto originalmente publicado no portal do InSightCrime, organização cujo objetivo é promover pesquisa, análises e investigações sobre o crime organizado na América Latina.



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