sexta-feira, 2 de maio de 2014

"PRÁ NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES"

Bem-me-quer, mal me quer

Em mais de 7 mil anos de história, as flores conseguiram tornar-se ao mesmo tempo símbolo de Deus e sexo, amor e morte, paz e loucura

por Texto Álvaro Oppermann

Na música brasileira, Cartola se inspirou nelas para criar obras-primas do samba. Poetas como Petrarca e Shakespeare escreveram versos memoráveis tendo-as como tema. Nas religiões, estão nos ritos e tradições de quase todas as civilizações, com exceção de algumas tribos africanas, em regiões inóspitas. Para a psiquiatria, a indiferença em relação a elas é um sintoma claro de depressão clínica. E nos EUA, onde tudo vira comércio, elas se tornaram um gigantesco filão: “Os americanos compram anualmente mais flores do que Big Macs”, escreve a autora Amy Stewart no recém-lançado Flower Confidential (“Flor Confidencial”), inédito no Brasil. São, de acordo com Amy, 4 bilhões de botões (37,5% de rosas) contra 600 milhões de Big Macs por ano. Como explicar o fascínio da flor?

Rosas já eram cultivadas na Mesopotâmia, às margens do rio Tigre, por volta de 5000 a.C. O plantio do lírio surgiu depois: o documento mais antigo preservado sobre ele, encontrado na ilha de Creta, é de 1850 a.C. Na China da época de Confúcio, uns 600 anos antes de Cristo, a paixão pelo cultivo de flores estava tão disseminada que o imperador da China possuía em sua biblioteca mais de 600 obras sobre o assunto. Surgiram a tiracolo superstições a respeito da flor. No Japão medieval, por exemplo, o crisântemo era tido como teste de fertilidade. Um homem dava um ramalhete à pretendente: se os botões de flor não abrissem, era sinal de que a jovem era estéril. O costume rendia muita dor de cabeça a donzelas casamenteiras japonesas. E coitado do crisântemo! Os italianos achavam que essa flor trazia azar. Muitas mortes esquisitas (quedas em poços artesianos, afogamentos em barris e coices de mula) foram creditadas a ramalhetes de crisântemos. Foi em Roma, contudo, no século 2 a.C., que as flores se tornaram uma mercadoria produzida em escala. Os romanos amavam tanto as rosas que a República chegou a criar um imposto sobre elas. Uma espécie de CPMF das antigas.

Os místicos das diversas religiões também viram na flor um símbolo do ser humano no drama universal da redenção, salvação e libertação. Sidharta Gautama, o Buda, no século 5 a.C., dizia que a flor do lótus simbolizava o homem liberto das paixões. “É a mais bela dentre as flores, mas só nasce no lodo”, diz ele em um de seus famosos comentários. O lodo seria a condição humana; e a flor, a transcendência desse estado. Já a rosa não teve a princípio uma carreira muito fácil na Europa da Idade Média. Os primeiros cristãos viam nela um símbolo pagão greco-romano, uma lembrança das farras monumentais da elite de Roma – as gastronômicas e as sexuais. Curiosamente, a aceitação da rosa na vida cristã se deu com o crescente papel da Virgem Maria na religião a partir do século 4, após muitos embates entre os teólogos – que costumavam menosprezar a importância da mãe de Jesus no cristianismo. Foi só depois que Maria ganhou o título de intercessora entre Deus e o fiel que a rosa teve um lugar de honra nos altares e cortejos, funcionando como um símbolo da mãe de Jesus. O termo “Rosa Mística” foi cunhado, aliás, para descrever Maria.

Mas a rosa só seria perfeitamente “cristianizada” na época do imperador Carlos Magno, no século 9. O imperador franco mandou plantá-la em todo o território francês, já então conhecido como o coração da Europa. Bem que dizia o ditado, gesta Dei per francos (“a obra de Deus feita por mãos francesas”), e a rosa pegou no Velho Continente: na época de são Bernardo de Claraval, no século 11, já tinha entrado para o cânone da Igreja como símbolo religioso. O binômio Rosa-Cruz, que mais tarde inspirou a criação de uma ordem iniciática (e sociedade secreta) na Europa medieval, sintetizava as respectivas qualidades de Maria e Jesus – a beleza (Maria) e a majestade divina (Jesus).

Apesar da influência mística, o homem medieval não era lá muito chegado à jardinagem, e a Europa só foi redescobrir plenamente a paixão estética pela flor – e pelo jardim – no século 16. Em 1554, um embaixador austríaco descobriu em Istambul, na Turquia, a flor que iria enlouquecer os europeus: a tulipa. Ela foi levada para o Jardim Botânico Imperial de Viena. Os austríacos eram tão ciumentos de sua descoberta que ela acabou despertando a cobiça do resto da Europa. Certa noite, em 1593, uma quantidade considerável de mudas de tulipa de um famoso jardineiro austríaco, Karl Clusius, foi roubada por espertos comerciantes da Holanda. O fascínio holandês pelas tulipas começou aí, num ousado roubo (veja boxe sobre a febre da tulipa abaixo).

Ainda em Istambul, em 1718, impressionada com os conhecimentos dos turcos sobre flores, a esposa de um embaixador inglês, lady Mary Wortley, escreveu A Linguagem Secreta das Flores. Com esse livro, nasceu um subgênero literário, por assim dizer, o do código secreto da etiqueta das flores (o que cada flor significa – uma proposta de casamento ou a renovação de laços de amizade). O livro de madame Wortley ainda era bem-comportado, mas em 1818 apareceu em Paris um opúsculo que iria incendiar a imaginação européia: o apimentado La Language des Fleurs (“A Linguagem das Flores”), escrito por Louise Cortambert, mais conhecida como Madame de la Tour. “A apresentação do buquê era tão importante quanto a escolha da flor presenteada. Uma tulipa dada com o caule para cima, por exemplo, demonstrava a espalhafatosa rejeição do pretendente pela dama”, diz Sheila Pickles, historiadora inglesa. Durante o longo reinado da rainha Vitória na Inglaterra, entre 1837 e 1901, o livrinho de Madame de la Tour ajudou ingleses, e inglesas, a driblar a rígida moral vitoriana: impedidos de expressar seus desejos verbalmente, passaram a usar buquês como código. “Um buquê de 100 rosas vermelhas era um convite certeiro para um encontro furtivo ao luar”, comenta Sheila (veja boxe abaixo). Tanto que, reza a lenda, a atriz Sarah Bernhardt, uma das maiores celebridades do teatro do século 19, adorava ganhar um único botão de rosa de seus admiradores (o que significava expressão de admiração pela beleza feminina), porém ficava indiferente a um largo buquê de 25 rosas (um mero “parabéns”). Em 1913, a atriz, já idosa, recebia muitos buquês de respeitosa admiração, mas nada muito além disso. Isso a deixava uma fera.

Espinho não machuca a flor

No século 20, como disse a escritora Amy Stewart, a flor se tornou também um bom negócio. Em países como o Equador, grande exportador e produtor das mais finas rosas do mundo, de cada US$ 100 em circulação, US$ 1 vem da floricultura. Nos EUA, a Sociedade dos Floristas Americanos calculou que, no Valentine’s Day (equivalente ao Dia dos Namorados), em 14 de fevereiro, são vendidas 175 milhões de rosas, o que dá 60% das vendas de flores na data. Nesse dia, 80% do público masculino envia buquês para a namorada, amante ou esposa – e acredite: segundo a pesquisa, a maioria das americanas envia flores para si próprias.

Na Holanda, o mercado varejista da flor é calculado em US$ 11 bilhões. Empresas como a Terra Nigra fazem testes contínuos em laboratório sobre os solos, as temperaturas, umidade e pressão mais favoráveis ao cultivo de rosas e tulipas. Uma equipe de “olheiros” sai pelo mundo em busca de locais que se aproximem das condições criadas artificialmente em laboratório. Foi assim que empresas da Holanda resolveram investir pesado no Equador, de alturas andinas de clima próprio ao cultivo da rosa, e no Quênia, na região do lago Naivasha. Mas o maior mercado mundial de floricultura ainda está em terras holandesas, na pequena cidade de Aalsmeer, de 20 mil habitantes. “Ele emprega 10 mil pessoas e seu tamanho é o da Disney World e do Epcot Center juntos”, diz Amy Stewart.

Em vão, japoneses e americanos tentam quebrar a supremacia holandesa no ramo das flores. A empresa australiana Florigene (adquirida recentemente pelo grupo japonês Suntori), aposta na biotecnologia e na pesquisa genética para ganhar nacos de mercados inauditos no negócio da flor. A Florigene está empenhada na criação da primeira rosa azul do mundo. A empresa australiana – pioneira na pesquisa de flores transgênicas – nomeou uma equipe de pesquisa para tentar criar a nova rosa. Como a flor não possui uma substância chamada delfinoidina, responsável pela coloração azul de muitas flores, a Florigene tenta extrair o pigmento azul de petúnias – “uma flor facilmente manipulável. É o nosso ‘rato de laboratório’ ”, diz ­John Mason, diretor do projeto. Depois de extraído, o pigmento vira alimento para bactérias que, a seguir, são inseridas nas células das rosas. Parece simples, mas não é, tanto que a Florigene ainda não conseguiu fazer a rosa mudar de roupagem. O máximo que conseguiu até agora foi uma rosa de tom púrpura.

Vejo flores em você

Mas voltando à pergunta: por que a flor nos fascina? Comecemos pelo seu mítico perfume. O segredo, revelado pelos cientistas, não é nada romântico. Uma pesquisa recente da Universidade de Purdue, na Califórnia, mostra que ele não é nada mais, nada menos do que uma estratégia evolucionária das plantas. Natalia Dudareva, coordenadora da pesquisa, identificou recentemente o mecanismo molecular que diminui a produção dos compostos voláteis responsáveis pelo cheiro assim que a flor é polinizada por abelhas e outros insetos. “O perfume é como um sinal emitido pela flor: ‘Vem, me polinize’ ”, diz Dudareva. Em flores como a boca-de-leão – um dos objetos da pesquisa – a produção do odor é interrompida após 48 horas da polinização, quando o tubo polínico conduz os gametas masculinos para dentro do óvulo. “Eu acredito que as plantas querem ter certeza de que estão polinizadas antes de interromper o odor”, diz Dudareva.

Para a biologia evolucionária, a beleza da flor também foi útil à estratégia de sobrevivência humana. “Reconhecer uma árvore frutífera em floração, prevendo que as flores se tornariam frutos, era um diferencial que o homem primitivo possuía sobre os que reconheciam só as árvores com frutos”, escreve Michael Pollan em The Botany of Desire (“A Botânica do Desejo”, de 2001, inédito no Brasil).

Na filosofia, o tema da flor teria provavelmente passado em branco, não fosse por um obscuro filósofo do início do século 20, um nobre inglês esquisitão chamado lorde Northbourne, herdeiro de uma família de barões ingleses. Northbourne observou, num livrinho chamado O Simbolismo das Flores, que a flor atrai a psique humana pela sua própria natureza: ela é um órgão sexual, que, depois de polinizado, se tranforma em fruto. “Todo o conjunto da flor é exibido e ostentado com gozosa des­preocupação. A flor exemplifica mais do que qualquer outro organismo a inocência, beleza e naturalidade da função sexual”, afirmou o barão filósofo. Ele estava dizendo o óbvio, mas muitas vezes é na obviedade que se soluciona um mistério. Como a psicanálise já descobrira, as forças propulsoras do ser humano são o sexo e a morte. A flor, no seu ciclo de vida e fenecimento, é o espelho perfeito disso.

A bolha das tulipas
No século 17, a Holanda testemunhou uma verdadeira febre da tulipa. Entre 1634 e 1637, essas flores chegaram a valer tanto que muitos cidadãos holandeses hipotecaram suas casas e investiram sua poupança na compra de ações representando tulipas em floração. Uma variedade pulou de 46 para 515 florins no período. Muita gente hipotecava a casa para comprá-la e revendê-la. Quando a “bolha da tulipa” estourou (como todas bolhas algum dia estouram), houve uma onda de suicídios no país. A tulipa 100% negra, ao que se sabe, nunca existiu, mas virou mito quando Alexandre Dumas escreveu A Tulipa Negra, em 1850. Existem tulipas cujas pétalas são retintas e quase inteiramente pretas, como é o caso da famosa Rainha da Noite. Uma grande especialista em tulipas, Anna Pavord, acredita na hipótese de que pode ter havido tulipas mais negras do que a Rainha da Noite, pois é sabido que as tulipas até o início do século 20 tinham manchas de cor mais vivas do que as atuais – as manchas eram causadas por um vírus. Controlado o vírus, as tulipas atuais são pálidas amostras do que foram as tulipas do século 17.

O sentido das flores

Margarida

Sentido: Inocência.

Origem: Na França, durante a Idade Média. No ano 250, são Dionísio, então bispo de Paris, foi martirizado, tendo a cabeça decepada por pagãos. Reza a lenda que seu corpo levantou-se, apanhou a cabeça e andou por vários quilômetros, até tombar no norte de Paris. No local teriam nascido margaridas. A flor virou, então, sím­bolo do martírio inocente.

Orquídea

Sentido: Status.

Origem: Século 19. Nobres ingleses contratavam botânicos aventu­reiros para recolher espécimes da flor em regiões remotas do mundo, da selva peruana à Índia. Esses caras ficaram tão famosos que receberam inclusive nome, orchid hunters – “caçadores de orquídeas”.

Rosa

Sentido: A flor do amor por excelência.

Origem: Perde-se no tempo. Na mito­logia grega, ela é a metamorfose de uma ninfa encon­trada morta. A magia de Clóris, deusa das flores, foi a responsável pela transformação. Mas o resultado não ficou perfeito. Então Afrodite, a divindade do amor, lhe deu beleza e cores, e Dionísio, o deus do vinho, o perfume.

Cravo

Sentido: Dor-de-cotovelo.

Origem: A flor mais masculina (usada até hoje por noivos, pastores evangélicos e cantores român­ticos na lapela) está associada à mágoa e à decepção amorosa. A origem é medieval e bem difundida nos países ibéricos. Tanto que a modinha O Cravo e a Rosa, de compo­sição de data incerta, é muito popular em Portugal.

 
A liguagem das rosas

No século 19, os apaixonados ingleses usavam a quantidade de rosas para se comunicar. Veja o que o número de botões significava.

1 Sou louco por você.

3 Eu te amo.

7 Eu te amo loucamente.

13 Vamos ser amigos para sempre.

15 Me desculpe.

25 Parabéns!

50 Nosso amor é incondicional.

100 Sexo?

108 Quer casar comigo?  

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