quinta-feira, 24 de abril de 2014

JUSTIÇA: DR. ODILON, UM JUIZ DE VERDADE!

Odilon de Oliveira: O Juiz Sem
 
Liberdade

Publicado por Horridus Bendegó  em 4 dezembro 2009 às 13:08
Revista Época
Por Walter Nunes
 

 
 

 
  

 
Odilon Oliveira condenou, nos últimos dez anos, mais de cem chefões do narcotráfico. Os bandidos oferecem US$ 1 milhão a quem acabar com ele.
 
Em cima de um armário de metal, na sala 117 da 3a Vara Federal de Mato Grosso do Sul, está a imagem de gesso de São Jorge, o santo guerreiro protetor dos oprimidos. “Uma mulher aqui da cidade me deu essa estátua”, diz o juiz Odilon Oliveira, com forte sotaque nordestino. “Ela disse que o santo vai me resguardar.” Na parede, um certificado de bênção do papa Bento XVI dedicado especialmente ao juiz – presente oferecido por um padre de uma cidade do interior sul-mato-grossense – reforça a escolta espiritual. “As pessoas me dão terços, santinhos, estátuas. Elas rezam para que nada de ruim aconteça comigo”, diz Odilon.
 
Ele diz confiar na ajuda divina. Mas, para não dar chance aos inimigos – e eles são muitos –, um grupo fortemente armado de anjos da guarda se reveza para manter a segurança do doutor Odilon, como ele é conhecido. São pelo menos três policiais federais armados com pistolas e fuzis colados dia e noite no juiz. E toda essa cautela ainda pode ser insuficiente: Odilon Oliveira é hoje um dos homens mais ameaçados do Brasil.
 
Caçador de traficantes de drogas, ele tem entre seus inimigos – segundo investigações das polícias do Brasil e do Paraguai – empresários, políticos e chefes de quadrilhas, como Fernandinho Beira-Mar. Já sofreu dois atentados e foi alvo de vários planos de assassinato. Semanas atrás, ÉPOCA presenciou um episódio que mostra a fama do juiz entre a bandidagem. No dia 21 de novembro, em audiência na penitenciária federal de segurança máxima de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, Odilon Oliveira discutia com o colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía, um dos maiores traficantes de drogas do mundo, sobre um pedido de extradição feito pelo governo dos Estados Unidos. Ao fim da audiência, o advogado do traficante comentou com seu cliente: “Esse é o doutor Odilon, um juiz rígido, muito conhecido por aqui. Temos sorte de seu processo por tráfico não estar nas mãos dele”. Abadía respondeu de bate-pronto: “Já ouvi falar dele aqui dentro do presídio. Muitos traficantes foram condenados por ele”.
Nos últimos dez anos, Odilon não só condenou centenas de traficantes, inclusive os chefões, a penas pesadas, como também esvaziou os cofres de várias quadrilhas. O juiz confiscou 85 fazendas. São 36 mil hectares de terra, ou três vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro. Ele ainda apreendeu 166 imóveis, entre casas, apartamentos e terrenos, 564 veículos, 18 aviões, seis embarcações e quase R$ 15 milhões em dinheiro. Odilon calcula ter causado, com os confiscos, um prejuízo de cerca de R$ 2 bilhões aos traficantes. “Para o bandido, perder o que ele conseguiu com o crime é pior que ficar preso. Quando não há confisco de bens, o criminoso movimenta o dinheiro mesmo estando dentro da cadeia”, diz Odilon. “E, depois que sai, consegue usufruir o que ganhou.”
Em sua passagem por Ponta Porã , em Mato Grosso do Sul, cidade onde funciona uma espécie de interposto das drogas que vêm do Paraguai, ele condenou, em um ano, 114 traficantes a penas que somam quase mil anos de prisão. Saiu de lá para a capital, Campo Grande, e continuou fazendo estragos na estrutura do crime organizado. Os barões do tráfico passaram a oferecer dinheiro pela cabeça de Odilon. A primeira oferta, em 1998, foi de US$ 60 mil. Segundo investigações das polícias do Brasil e do Paraguai, a oferta hoje está em US$ 1 milhão.
Foram tantas as tentativas de assassiná-lo que, durante um encontro entre magistrados de Brasil, Itália, Portugal e Estados Unidos, Odilon foi homenageado como se tivesse morrido combatendo o crime.
Poucos anos atrás, um pistoleiro contratado na região chegou perto, segundo o juiz. Odilon diz que o bandido estava dentro de uma academia de ginástica, mas não teve coragem de esfaqueá-lo na frente de duas crianças. “Aquelas duas crianças me salvaram”, diz Odilon. O último plano de assassinato foi descoberto pela polícia civil de Mato Grosso do Sul em maio deste ano.

O traficante Aldo Brandão, considerado um dos líderes da organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) em Mato Grosso do Sul, comandou de dentro da penitenciária estadual de Dourados, naquele Estado, um plano para matar o juiz, marcado para o Dia das Mães. Segundo a polícia, Aldo contratou pistoleiros, providenciou uma frota de caminhonetes, carros de luxo e até um avião para dar suporte à operação. Os matadores prepararam tudo às escondidas, em sítios de Campo Grande. O arsenal da missão era digno de filmes de guerra: fuzis AR-15 e AK-47, várias pistolas e granadas. Caso algum traficante desistisse na última hora, seria morto com a família. Ao todo, o plano teria custado cerca de R$ 2 milhões, arrecadados de um consórcio formado por várias quadrilhas. O plano só não foi adiante porque a polícia o descobriu e Aldo foi transferido para uma penitenciária federal de segurança máxima.
A cada novo esquema descoberto, a segurança do juiz aumenta. Ele já morou em um fórum em Ponta Porã, mas precisou mudar-se por causa de uma tentativa de invasão. Foi transferido para um hotel de uso exclusivo do Exército, mas mesmo assim um pistoleiro trocou tiros com a sentinela de plantão em outra tentativa de invadir o prédio. Hoje poucas pessoas no Brasil têm um aparato de segurança tão formidável quanto Odilon. Ele só anda s em carros blindados que suportam tiros de fuzis. É sempre escoltado por outro carro blindado com policiais federais e antes de sair de seu escritório ou casa veste um colete à prova de balas. Antes de entrar em qualquer ambiente, um policial federal armado de fuzil toma a dianteira para checar a segurança.

Em sua casa, são agentes de segurança que autorizam a entrada das visitas. Todos os cômodos têm ramal de interfone e os agentes sabem o celular de cada um de seus familiares. Na Justiça Federal, onde trabalha, praticamente todos os ambientes são monitorados por câmeras de TV. Para falar com Odilon é necessário passar por duas portas equipadas com detectores de metal e é preciso registrar a imagem e a impressão digital em um cadastro na portaria do prédio.

A ironia é que o juiz vive tão privado de liberdade quanto os bandidos que ele condena à prisão. “Por causa da minha segurança, tive de abrir mão da privacidade. Isso é terrível”, diz Odilon.“Tem gente que acha que andar escoltado por seguranças é ter status. Que bobagem. O fantástico é ter liberdade.” Odilon é casado há 33 anos com Maria Divina e tem três filhos. Há um ano e meio ganhou um neto e seu maior ressentimento é não poder passar mais tempo com o garoto. “Quando um homem tem um neto, é a última oportunidade de ele revisitar sua infância. É uma pena eu não poder fazer tudo o que quero com meu neto”, diz.
O juiz não vai a restaurantes, não freqüenta missas, não visita amigos. “Eu convivo com ele há anos, e nunca o vi sair para jantar fora”, diz um dos agentes de sua escolta. Para ir ao casamento de um dos filhos, precisou ser escoltado por dez agentes de segurança. O doutor Odilon não se lembra da última vez em que foi fazer compras em um supermercado. Ele e a esposa deixaram de freqüentar as aulas de dança de salão.
Faz quatro anos que não aparece na varanda de seu quarto. Seu passatempo é pendurar uma rede na garagem de casa nos fins de semana e passar horas lendo. De preferência, livros sobre crime organizado e terrorismo – no momento está lendo Ilícito, livro-reportagem do jornalista Moises Naim sobre o tráfico de drogas, de armas e de órgãos humanos.
A ostentação dos traficantes condenados por Odilon, que se divertiam com carros de luxo, mansões, iates, helicópteros e até aviões, contrasta com a simplicidade espartana do juiz. Ele não usa relógio nem anéis. Os óculos de grau ficam pendurados em seu pescoço, prontos para ajudá-lo a ler algum documento. Mesmo no calor intenso de Campo Grande, o juiz não dobra a manga da camisa nem afrouxa a gravata. Sisudo, trata a todos com formalidade, não faz piadas nem demonstra intimidade com ninguém. Trata por senhor e senhora a todos com quem conversa. “O senhor, por favor, tire uma cópia deste documento para mim”, diz a um estagiário. Ele não fala palavrão. O mais duro ataque que faz a um desafeto é chamá-lo de “sujeito seboso”. Reflexo da criação rigorosa dada por seus pais.
Odilon Oliveira nasceu há 58 anos na pequena Exu, cidade do sertão pernambucano. Terceiro dos oito filhos dos lavradores Expedito e Domercília, teve uma infância miserável. Passou fome, mas resistiu. Alguns primos e um irmão não sobreviveram à pobreza. Para evitar novas mortes, a família fugiu da seca e embarcou na carroceria de um caminhão para tentar a sorte em Mato Grosso do Sul, Estado que promovia um programa de colonização. Odilon começou a trabalhar na roça aos 5 anos, plantando arroz, mandioca e criando galinhas – tudo para subsistência. Aos 9 anos, começou a estudar incentivado pela mãe. “Meus pais eram analfabetos, mas na família da minha mãe tinha gente que sabia escrever cartas. Por isso ela me forçava a estudar”, diz.

Tomou gosto pelos livros e passou a vender ovos e legumes para poder comprar lápis e caderno. Virou o centro das atenções da família, que todas as noites se reunia em torno de um lampião a querosene para ouvir Odilon ler literatura de cordel. Após terminar o ensino médio, passou no vestibular de Direito de uma universidade particular de Campo Grande. Para custear os estudos, trabalhou como professor primário em uma cidade próxima. Acordava às 4 da manhã e chegava em casa depois da meia-noite. Formado em Direito, passou em vários concursos públicos. Foi procurador da União, promotor de justiça, juiz estadual, até chegar, em 1986, ao cargo que ocupa hoje: juiz federal. Ele é o único da família que conseguiu um diploma de curso superior.

A infância sofrida e a adolescência difícil parecem menos cruéis que a atual realidade do juiz. “Apesar de eu não me arrepender de nada do que fiz, a vida que eu levo hoje é mais dura. Eu sou uma pessoa mais triste do que eu era antes”, admite o doutor Odilon. E a miséria maior é que o juiz vislumbra um futuro ainda mais obscuro. “Eu tenho medo do que vai ser daqui a 11 anos, quando eu me aposentar. Vou perder a proteção policial e ainda vai ter muita gente querendo se vingar de mim”, diz. Sua escolta será reduzida aos santinhos e à imagem de São Jorge, que descansa em cima de seu armário.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Qual sua opinião sobre isso?