terça-feira, 1 de abril de 2014

HISTÓRIA: O PARÁ E A DITADURA

'A constituição foi rasgada', diz governador deposto na ditadura

Governador do Pará perdeu o mandato em junho de 1964.
Golpe foi apoiado pelas elites agrárias do estado, diz historiadora.

Ingo Müller Do G1 PA

Aurélio do Carmo teve o mandato simbolicamente devolvido em cerimônia realizada em 2013 (Foto: Ozeas Santos / Alepa)Aurélio do Carmo teve o mandato simbolicamente devolvido em cerimônia realizada em 2013 (Foto: Ozeas Santos / Alepa)

O desembargador Aurélio do Carmo era governador do Pará em 1964 quando seu mandato foi cassado pela ditadura. Hoje, com 92 anos, ele lembra de como foi retirado do cargo. "Vencemos no Pará com uma margem de votos expressiva. Quando houve o regime militar, se cercaram de várias acusações contra mim, que a história mostrou infundadas, para me tirar do poder", conta.

(ESPECIAL "50 ANOS DO GOLPE MILITAR": a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, desencadeou uma série de fatos que culminaram em um golpe de estado em 31 de março de 1964. O sucessor, João Goulart, foi deposto pelos militares com apoio de setores da sociedade, que temiam que ele desse um golpe de esquerda, coisa que seus partidários negam até hoje. O ambiente político se radicalizou, porque Jango prometia fazer as chamadas reformas de base na "lei ou na marra", com ajuda de sindicatos e de membros das Forças Armadas. Os militares prometiam entregar logo o poder aos civis, mas o país viveu uma ditadura que durou 21 anos, terminando em 1985. Saiba mais.)

Carmo relembra que sua saída não foi imediata: após o golpe, ele ainda permaneceu no cargo até o mês junho daquele ano, quando Jarbas Passarinho foi empossado como governador do Pará, onde permaneceu até 1966. Segundo o ex-governador, ele não foi perseguido no estado porque mudou-se para o Rio de Janeiro, e só retornou ao Pará após receber a anistia.

"A ditadura foi o rompimento do princípio de autoridade. A constituição foi rasgada", lamenta o ex-governador que, em uma cerimônia realizada em março de 2013, teve o mandato simbolicamente restituído na Assembléia Legislativa do Pará. "Foi um reconhecimento da violência cometida contra mim", avalia.

Para o político, a principal justificativa do golpe - evitar que o Brasil se tornasse comunista - era infundada. "Efetivamente não houve ameaça comunista, apenas uma série de greves que atrapalharam o país", recorda.

Apoio da elite agrária

Segundo a historiadora Edilza Fontes, da Universidade Federal do Pará, quando o golpe militar aconteceu a cúpula do governo estava fora do estado. "O governador Aurélio do Carmo não estava no Pará. O prefeito de Belém, Moura Carvalho, e grande parte da elite política estavam em Brasília, em uma reunão do Partido Social Democrata", revela.

Havia um temor que a reforma agrária 'perdesse o controle' e fosse atingir os grandes latifundiários"
 
Edilza Fontes, historiadora da UFPA

Para Edilza, um dos principais fatores que fizeram que a elite paraense apoiasse o golpe era o medo da reforma agrária, especialmente de fazendeiros que ocupavam terras públicas. "O projeto da reforma de João Goulart era fazer a reforma com terras públicas, mas havia um temor que a reforma 'perdesse o controle' e fosse atingir os grandes latifundiários", destaca.

A historiadora diz que, apesar de polêmico, o assunto chegou a ser debatido pelos militares. "Castello Branco, o primeiro presidente da ditadura, tenta discutir a questão e é bombardeado pelos aliados, então a proposta vira de colonização, especialmente de terras desocupadas - que seriam na Amazônia, através de grandes projetos como Carajás e a hidrelétrica de Tucuruí", avalia.

paes loureiro (Foto: Divulgação)O poeta João de Jesus Paes Loureiro sofreu perseguição e tortura. (Foto: Divulgação/ Carlos Borges)
 

Perseguição de ideias

O poeta João de Jesus Paes Loureiro foi um dos paraenses perseguidos pelo regime militar. Apesar de ter ligações com o Partido Comunista, Paes Loureiro conta que a perseguição não era pela ideologia, mas pelas palavras: eram seus livros, com versos contra a ditadura, que incomodavam o regime.

"Eu tinha relação com o Partido Comunista, mas fui perseguido em função de um livro de poemas que seria lançado com o apoio da União Nacional dos Estudantes (UNE). Tinha poemas líricos e sociais. Fui preso como militante e poeta subversivo", relembra o paraense, que foi encarcerado várias vezes no Pará, até ser transferido para o Rio de Janeiro após ser detido pelo serviço secreto da Marinha.

"No Pará sofri constrangimentos, tapas, coronhadas e torturas psicológicas. Mas a tortura foi mais intensa no Rio de Janeiro pelas ameaças, pela pressão psicológica nos inquéritos", conta Paes Loureiro, que acredita ter escapado de ser um dos desaparecidos do regime pouco antes de ser entregue ao Departamento de Ordem Política e Social, que fazia a repressão de movimentos políticos e sociais.

"Temos de fazer de tudo para impedir este tipo de retrocesso. É angustiante que haja quem defenda a tragédia histórica, a crueldade que a ditadura representou"

João de Jesus Paes Loureiro, poeta

"Estive no camburão do Dops, mas veio a informação de que eu estava sendo levado por engano. Haviam me confundido com um sindicalista e, como eu estava sem documentos, não teria como provar minha identidade. Eu considero que teria desaparecido, caso tivessem me levado", avalia.

Por conta disto, Paes Loureiro considera absurdas as manifestações de jovens conservadores que, sem a dimensão do que foi o regime, pedem uma nova intervenção militar no país. "Isso é de um absurdo tão grande, uma manifestação tão perversa, que é como pedir a volta do nazismo na Alemanha, ou o fascismo na Itália. Temos de fazer de tudo para impedir este tipo de retrocesso. É angustiante que haja quem defenda a tragédia histórica, a crueldade que a ditadura representou".
 

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