terça-feira, 1 de abril de 2014

HISTÓRIA: O PARÁ E A DITADURA - Parte II

'O que se diz de indígenas é muito pouco', diz pesquisador do Araguaia

Paulo Fonteles Filho aponta que 350 índios e camponeses morreram no PA.
Guerrilha durou 3 anos, entre 1972 e 1975.

Do G1 PA
A Guerrilha do Araguaia foi um movimento existente ao longo do rio Araguaia, entre as décadas de 60 e 70 (Foto: Reprodução/TV Liberal)
Durante a Guerrilha do Araguaia, tropas militares enfrentaram guerrilheiros que lutavam contra o regime da ditadura e pela reforma agrária (Foto: Reprodução/TV Liberal)

O pesquisador Paulo Fonteles Filho nasceu em uma cadeia do regime militar: sua mãe, condenada a 1 ano de prisão pelo crime de subversão, estava grávida de cinco meses quando foi levada para o Pelotão de Investigações Criminais de Brasília. "Meus pais foram presos em 1971, eles eram estudantes paraenses da UNB e foram presos por subversão. Eu nasci na prisão, em Brasília. Meus pais passaram por três grandes centros de tortura, incluindo o Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, que era considerado o mais terrível, e terminaram de cumprir pena no presídio de São José, em Belém", conta.

(ESPECIAL "50 ANOS DO GOLPE MILITAR": a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, desencadeou uma série de fatos que culminaram em um golpe de estado em 31 de março de 1964. O sucessor, João Goulart, foi deposto pelos militares com apoio de setores da sociedade, que temiam que ele desse um golpe de esquerda, coisa que seus partidários negam até hoje. O ambiente político se radicalizou, porque Jango prometia fazer as chamadas reformas de base na "lei ou na marra", com ajuda de sindicatos e de membros das Forças Armadas. Os militares prometiam entregar logo o poder aos civis, mas o país viveu uma ditadura que durou 21 anos, terminando em 1985. Saiba mais.)

Por conta disso, Fonteles se dedica a estudar a história do período em que o Brasil esteve sob controle dos militares. O foco da pesquisa é justamente a tortura de paraenses: em dezembro de 2013, ele lançou o livro "Araguaianos: as histórias que não podem ser esquecidas", contando detalhes da Guerrilha do Araguaia, que ocorreu nos estados do Pará e Tocantins entre 1972 e 1975.

O governo da ditadura brasileira combateu os guerrilheiros a partir de 1972, quando vários dos integrantes já haviam se estabelecido na região há pelo menos seis anos (Foto: Reprodução/TV Liberal)O governo da ditadura brasileira combateu os guerrilheiros a partir de 1972 (Foto: Reprodução/TV Liberal)

"Nos últimos 20 anos, o Araguaia é um dos temas mais abordados pelos estudiosos da ditadura. Infelizmente, há um pacto de invisibilidade: sempre se trata dos militantes, que na minha opinião são heróis, mas o que se diz dos camponeses e indígenas é muito pouco, eles são pouco conhecidos no movimento de libertação do povo brasileiro", avalia.

Segundo o pesquisador, durante a guerrilha, cerca de 350 camponeses do Pará foram mortos - algo que contradiz os dados oficiais, que apontam 400 desaparecidos em todo o país durante os 21 anos do regime militar. Além disso, o confronto teria deixado sequelas profundas no estado. "Eu tenho convicção que a pistolagem começou neste período. A vitória militar foi o início da cultura da violência. Foi uma derrota para a Amazônia".

Conflitos fundiários

O historiador Michel Pinho repassa a história da ditadura no Pará através da lente de sua câmera fotográfica: ele documenta locais que serviram de pontos de tortura, e chegou a fazer expedições para São Geraldo do Araguaia, no sudeste do Pará, um dos palcos da guerrilha. Segundo ele, a luta chegou ao campo após a repressão nas cidades, e o conflito nasceu das disputas de terras.

"A guerrilha do Araguai é fruto do conflito de terra. A ideia dos guerrilheiros de reforma agrária é muito malvista pelos proprietários de terras da região. A repressão atendeu a interesses políticos. Hoje a gente vivencia a pistolagem, que surgiu no final da guerrilha, quando houve o treinamento de locais para combater os guerrilheiros", explica.

"Padres foram presos e torturados. Uma irmã dominicana morreu sobre a ditadura, bispos eram chamados para depor, e dois missionários franceses de São Geraldo do Araguaia, Francisco e Aristides, foram julgados e condenados pelo tribunal militar do Pará"
 

Paulo Joanis da Silva, presidente da CPT

Padres perseguidos

O presidente da Comissão Pastoral da Terra, padre Paulo Joanis da Silva, chegou ao Pará em 1978 e viveu parte da ditadura no estado. Segundo ele, a atuação do regime contribuiu para os conflitos do campo no Pará. Como consequência, religiosos que denunciavam os abusos do poder acabavam sendo perseguidos.

"Padres foram presos e torturados. Uma irmã dominicana morreu sob a ditadura, bispos eram chamados para depor, e dois missionários franceses de São Geraldo do Araguaia, Francisco e Aristides, foram julgados e condenados pelo tribunal militar do Pará em 1982 e 83", recorda.

Segundo o religioso, com o fim dos projetos de reforma agrária, o discurso do governo passou a ocupar um espaço supostamente vazio, mas que era dos pequenos produtores - algo que, para a CPT, contribui até hoje para a violência no campo. "No regime militar, com incentivos da SUDAM, vieram grupos para ocupar grandes extensões fundiárias que não eram legalizadas. É o modelo de invasão pelo poder econômico, que cria uma bola de neve", disse.
 

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