terça-feira, 10 de setembro de 2013

MÍDIA: PORQUE OS JORNALISTAS MENTEM?


O leitor já deve ter ouvido, durante uma discussão acalorada, o seguinte argumento: “mas é verdade, eu li na revista tal [veja, não é preciso dar nome aos bois, pois o leitor sabe bem quem são eles…]”. Se o leitor não é jornalista – ou é, e por acaso está no grupo daqueles que vêem, mas preferem não enxergar – aí vai uma revelação bombástica: os jornalistas mentem.

OK, nem é tão bombástica assim. Mas acontece que muita gente ainda compra jornal e revista como quem adquire opiniões e lê tudo que está escrito como quem se intera de fatos, e puramente fatos. A culpa não é apenas da ingenuidade do leitor, mas de um consenso estabelecido de que a mídia diz a verdade.

As ciências sociais e a filosofia passaram o último século debatendo a capacidade humana de chegar a verdades e hoje já é carne de vaca: é impossível. O ser humano representa, simboliza, racionaliza e chega a algo que é como o mapa para o churrasco no sítio do seu amigo: as vias, curvas e referências estão lá, “representadas”, mas nem de longe traduzem toda a riqueza de detalhes do caminho. Não é mentira, mas não é verdade.

Se há mais de 250 anos Kant já anunciava os limites do intelecto humano, nós, jornalistas, preferimos enganar você, leitor, vestindo a camisa da imparcialidade e da isenção. Claro! As pessoas passam a vida inteira querendo ser “donas da verdade” e nós, que já nascemos com essa prerrogativa, vamos abrir mão assim fácil? Nem a pau, Juvenal.

Veja o exemplo da matéria de capa da última edição da revista Exame, que escandalizou a amiga e ativista de todas as causas da humanidade, Cíntia Kogeyama, e motivou este post. 

A capa já anuncia o que vem por aí: “ONGs os novos inimigos do capitalismo”. A foto é de um “subversivo”, atacando um objeto contra a pobre e bem-intencionada Polícia de choque brasileira, que só usa de artifícios “morais”, como bem sabemos, para coibir as manifestações desses terroristas disfarçados de boas intenções.

Aí vem o olho: “Os prejuízos e desafios das empresas brasileiras na convivência com grupos radicais que lutam contra o livre comércio, a globalização e o agronegócio”. Ou seja, de saída sabemos que ONG é sinônimo de problema e não solução. O que se segue é um festival de declarações imparciais e isentas do tipo:

“Os ativistas na defesa do meio ambiente iniciaram, nos últimos meses, um novo ciclo de espalhafatosas ações de protesto contra as grandes empresas”: A matéria é aberta com uma descrição que pinta os ativistas como personagens ridículos que se vestem de frango e saem cacarejando pelas ruas (sem mencionar, de cara, que esses mesmos ativistas ridículos, vestidos de frango, conseguiram conter, pelo menos temporariamente, a plantação de soja na Amazônia).

Ainda sobre a soja: “Os produtores também argumentam que a soja só ocupa áreas previamente degradadas por madeireiros”. Ahhhh, bom. Se é assim, tudo bem.

E continua: “Segundo a nova ideologia, o mundo de hoje seria dominado por gigantescas corporações interessadas em ganhar muito dinheiro à custa da saúde das pessoas e do planeta”. Que absurdo!!!

Ou ainda: “As ONGs acreditam que o capitalismo aumenta a divisão entre os ricos e os pobres”. Só as ONGs pra pensarem uma coisa dessas…

E só pra fechar com chave de ouro: “Acuadas pelas forças dos ativistas (ou “chantagistas verdes”, como foram batizados por seus críticos), muitas multinacionais acabam cedendo a seus apelos”. Tadinhas…

Não é que não haja argumentação a favor das ONGs: ela ocupa, primordialmente, a última meia página de uma matéria de oito. O que há, claramente, é um peso muito maior aos argumentos dos empresários, que se evidencia desde a capa até a retranca – “A caixa-preta das ONGs” – que revela como as ONGs são, na verdade, esquemas de manipulação política, lavagem de dinheiro e toda sorte de picaretagens possíveis e imagináveis e traz como box uma entrevista com um ex-ativista do Greenpeace descendo a lenha na ONG verde.

O leitor perspicaz pode muito bem agora argumentar: “Bem, mas você selecionou os trechos que ilustram o seu argumento, ao seu bel prazer. Você não está sendo igualmente parcial?”. Sim, obviamente. A diferença é que eu estou dizendo pra você, caro leitor, qual é o meu propósito com essa argumentação.

A diferença é que eu estou jogando limpo. E poderia jogar mais limpo ainda, dizendo que sou de esquerda (seja lá o que isso signifique) e sim, acho que há ONGs e ONGs, mas que uma categoria não pode ser ridicularizada e martirizada como um todo pelas falhas de alguns componentes, e, especialmente por tornar a vida dos pobres empresários um pouco mais complicada.

Pronto, as cartas estão na mesa e você pode decidir se a minha argumentação, com base nas minhas orientações e propósitos, é valida para você ou não. Você pode decidir se a minha versão da verdade lhe cabe, se o meu mapa serve ou não para você chegar aonde quer.

Aí o leitor pode argumentar que quem lê Exame sabe bem que visão de mundo está comprando. Concordo. Mas questão é que não é só a Exame que faz isso. Todos os grandes jornais, revistas e TVs deste País (e de outros, por que não) o fazem. Entregam a você, leitor, recortes e interpretações de realidade como realidade.

Os jornalistas mentem não porque contam fragmentos de verdade. É só isso que podemos fazer. Os jornalistas mentem porque vendem verdades absolutas e convencem você, leitor, de que não são pessoas de verdade – com crenças, gênero, orientações políticas e sexuais, preconceitos, motivações e dúvidas. Se o sabem e continuam fazendo, é porque são levianos ou simplesmente precisam manter seus empregos. Se não o sabem, é porque são ingênuos. De toda forma, quem sai mais prejudicado é você, leitor que, afinal, não estava lá pra ver e tem que se contentar em crer.

Ou a Rede Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo te contaram que as famigeradas fotos do dinheiro para a compra do dossiê que forjaram o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil vieram acompanhadas de uma recomendação expressa: “tem que sair no Jornal Nacional!”? E depois ninguém entende como dois milhões de votos “de repente” mudaram de lado, como num passe de mágica…

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